sexta-feira, 4 de julho de 2014

DO QUE A PESCA DE ARRASTO É CAPAZ: AS TONINHAS DE PERUÍBE PRECISAM DE NOSSA AJUDA!


Eu morei e trabalhei como voluntária na Unidade de Conservação da Jureia Itatins, a 1hr de Peruíbe, cidade litorânea de São Paulo. Foi uma experiência única, que aparece aqui em dezenas de postagens, deixo alguns links abaixo. O próprio Aquário de Peruíbe, citado na mensagem abaixo, também mereceu uma postagem exclusiva, onde vi ovos de tubarão pela primeira vez, em cativeiro.
Não deixe de ler a mensagem abaixo e, se for da região, fique de olho, denuncie e faça a sua parte. Toninhas são animais ameaçados de extinção.

"Dia 25 de junho foram encontradas 7 toninhas mortas nas Ruínas, Peruíbe sendo que 3 delas estavam prenhas, ou seja, perdemos 10 animais. Hoje (02 de julho), também nas Ruínas, foram encontradas mais 2 toninhas, uma delas prenha. Com a ajuda do Aquário de Peruíbe registramos esses encalhes. Na necropsia do dia 25 constatamos que esse grupo foi morto por rede de pesca, uma morte muito sofrida pois além do afogamento, havia muitas fraturas e marcas de interação, precisamos da ajuda da população local para pegar esses criminosos em flagrante.

As toninhas são pequenos golfinhos muito tímidos e de hábitos costeiros, estão na lista de ANIMAIS AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO, pois são muito impactados pelas redes de pesca (espera, arrasto e arrasto de praia), a população é muito pequena e está em declínio, ocupam regiões específicas na costa do BR, o litoral centro de SP é uma delas. O que está acontecendo nas Ruínas, é um crime grave e tem que ser punido. Entramos em contato com a Policia Militar Ambiental de Peruíbe, que se colocou a disposição e abrimos um B.O., quem tiver alguma informação, foto, filmagem, ou então estiver na praia e ver alguma atividade suspeita por favor ligar para a PM e denunciar no telefone (13) 34553780.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

A expedição de Sebastião Salgado ao território Ianomâmi


  
Expedição ao território Ianomâmi integrará novo livro de Sebastião Salgado

Projeto consiste em duas viagens por ano para documentar a luta dos índios no Brasil

Organizada e liderada por Sebastião Salgado e acompanhada pelo GLOBO, a expedição ao território 

Ianomâmi em março último é parte de um projeto de fôlego que consiste em duas viagens por ano para documentar a vida e as lutas das principais etnias indígenas do Brasil. Editadas, as imagens recolhidas até o fim do ciclo deverão constituir a temática do seu próximo livro.


A expedição, da qual participaram também o assistente de Salgado e guia de montanhas Jacques Bartelemy, e o mateiro maranhense Agostinho de Carvalho, foi em duas partes: primeiro, 15 dias na aldeia Watoriki, divisa do Amazonas com Roraima, na segunda metade de março, quando se iniciava a importante festa fúnebre de reahu, que acontece no máximo uma vez por ano, na ocorrência de uma morte considerada não-usual, causada por um tipo de acidente místico. Repleta de simbolismos, a festa remete, à luz de nossos dias, à relação com os brancos.





A segunda fase da viagem foi uma aventura cuidadosamente planejada: a partir da aldeia de Maturacá, ao pé do Pico da Neblina ( dividida entre a tradição e as tentações do garimpo ilegal, próxima a um pelotão de fronteira e catequizada por uma missão salesiana), reunir vinte guerreiros e xamãs para subir os 3 mil metros do ponto culminante do Brasil, montanha sagrada dos ianomâmis, castigada pela corrida do ouro e fechada à visitação.

A empreitada de Salgado iniciou-se ano passado, quando fotografou os índios isolados awás, do Maranhão, incursão relatada por Míriam Leitão, que acompanhou a viagem, em reportagem no GLOBO que terminou com a expulsão, pelo Exército e pela Funai, de madeireiros e fazendeiros que ocupavam suas terras.






Ianomâmis: a guerra de um povo entre a vida e a morte 

O grito dos irredutíveis de Watoriki, microcosmo da maior área indígena do país, sob ameaça
Março, 2014. Amazonas, divisa com Roraima, entre as bacias do Rio Negro e do Rio Branco. Ao entrar na casa-aldeia de Watoriki, convidados para testemunhar a festa fúnebre de reahu —, durante expedição às terras ianomâni organizada por Sebastião Salgado e acompanhada pelo GLOBO — somos saudados em coro.

Awei napë pë kopema!

“Os brancos chegaram”, traduz o lendário Davi Kopenawa, chefe da aldeia. Mas, no vernáculo, napë é um ser incorpóreo, oposto de yanomam (ser humano). Ou, nos relatos dos anciãos “espectros calvos esbranquiçados vindos das costas do céu e subindo os rios para comer carne humana defumada como carne de macaco”.





Cansados de quatro horas num monomotor vindo de Manaus, fazemos a volta da maloca, saudando seus habitantes. Mas a marcha é refreada por uma visão: 60 cadáveres de macacos atados por cipó pendem em fogo baixo. De cócoras, os corpos familiares fazem pensar que os brancos poderiam estar ali: na trilha das missões e das comissões de limites, das estradas abertas pelo exército nos anos 1970 e da corrida do ouro na década seguinte, 80% dos ianomâmis morreram.

O pensamento sombrio é aplacado por sorrisos e mãos abertas dos mais velhos, nus; pelos meninos com pequenas flechas e os curumins carregados por jovens mães; pelo mirar tímido das mulheres de tanga, seios e nádegas à mostra; e pela cautela dos homens da nova geração, de bermudas (algumas com as cores do Brasil) e peito aberto pintado de jenipapo e carvão.






Os duzentos quilos de macacos são apenas parte do rito que viemos testemunhar e, neste primeiro dia de exéquias — em honra de um morto cujo nome não se pronuncia — o sol é refletido pela parede lisa e úmida da Serra Demini, visível de qualquer ponto dos 80 metros de diâmetro da maloca. Coberta de palha e folhas, com uma praça de terra batida ao ar livre, lembra um estádio. No centro, sob efeito da yakuana, pó marrom feito de ráspas de árvores que dá acesso aos espíritos (os ianomâmis são donos de vasta etnobotânica e um menu de plantas mágicas, médicas, letais, afrodisíacas), Genésio, membro da elite de pajés, solta gritos que imitam as vozes dos animais, faz poses que emulam fantasmas de árvores e gestos que repetem as coreografias dos espíritos protetores e dos maléficos. Com espanto, aponta para a serra Demini, onde reside o vento, ou para o céu, pedindo que o firmamento não caia sobre urihi-a, a “terra-floresta” criada a partir de matéria amorfa. Tragédia que passa facilmente do símbolo milenar à realidade, na interpretação de Davi, que observa a cena.

— A terra não morre. Só a gente. A terra só morre se o branco destruir. O chão fica frio, as árvores secam e as pedras esquentam. Os xapiripë, espíritos da serra, não podem mais dançar e vão embora. Os espíritos ruins reinam e todos morrem.

Registrada no livro “La chute du ciel” (“A queda do céu") escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert (maior estudioso dos ianomâmi) em parceria com Davi, a ideia de queda, que faz pensar nos irredutíveis gauleses de Asterix, afina-se com o discurso ambientalista, cada vez mais convergente com a cosmologia indígena.





Sob o céu que anoitece, os brancos se deitam cedo, em redes, entre famílias e “parentes” convidados para a festa, e curtem o breu que, numa aldeia sem luz elétrica, é permeado por lanterninhas e pequenas fogueiras que vão amenizar o frio da madrugada amazônica. Logo começam os discursos em yanomae, sobre os fatos do dia, a festa e o surto de gripe que ameaça duas anciãs e três crianças com pneumonia. Espirros, tosses agudas e gemidos de dor se alternarão, noite adentro, com roncos sobressaltados dos idosos.

Quando o dia nasce, o povo da aldeia já partiu à caça e à coleta de pupunha para fazer o “mingau”. Caçadores com arcos e flechas (e, raramente, espingarda) aventuram-se, usando as artes de imitar os animais, procurando seus alimentos típicos, seguindo seus rastros. Mais tarde chegarão com mutuns, e, nos dias seguintes, uma onça, um tatu, antas, porcões, cotias.

No posto da Funai, chefiado por Davi, enfermeiras e um médico cubano animados por um papagaio peripatético de asas cortadas que atende por Kiko (mas é fêmea), comunicam-se por rádio com a metrópole e outras comunidades. Parece que vai chegar remédio novo.

No fim da tarde, a pupunha macerada e misturada à água trazida pelas mulheres do igarapé onde todos se banham já fermenta em grandes galões. Nas franjas das telhas, secam os bijus de mandioca. Nesta madrugada, os brancos serão despertados por danças rituais, nas quais os homens e as mulheres marcham batendo os pés, em dezenas de voltas, enoando cantos polifônicos. Entre o fascínio e a insônia, os brancos experimentarão o banheiro reservado a eles. Contaminados pela alimentação da cidade e a corrupção da alma, os dejetos dos brancos são considerados impuros para a mata. Só à medida que a confiança mútua se estabelecer, os napë terão licença de usufruir das abluções in natura, segundo usos e costumes locais.



No dia seguinte o mingau de pupunha ligeiramente fermentado repousa numa grande arca. Em cuias de coco, os participantes da festa recolhem o vinho alaranjado e oferecem uns aos outros em grande quantidade, para regurgitar. Então, recomeçam a beber. O ciclo se repete até que a arca se esvazie. Cercado de grande hilaridade, é um tipo de guerra satírica, no qual uns “matam” os outros mas a morte nunca chega, já que vão dormir exaustos, e dançar na noite seguinte, e, ao amanhecer, correr, de novo, para a arca.


A negação da morte é levada a sério, e só com muito esforço é possível descobrir o que aconteceu — já que, pelas regras, falar do morto é proibido. Seus objetos foram queimados, seu nome é proscrito, os fatos da morte não interessam. Mas, com o passar dos dias, a história por trás do luto vai se desvelando, em relatos curtos e pequenas catarses. Irmão caçula de Raimundo, chefe de família, um dos líderes locais, o jovem caçador morreu depois de matar um mutum azul. Ao subir a árvore para recuperar sua flecha, caiu de costas. Mortes assim, na mitologia ianomâmi, só ocorrem quando se mata o seu duplo animal. Daí a importância e a grandeza da festa.


Envolto numa espécie de rede feita de folhas de bananeira, o corpo foi suspenso entre duas árvores próximas ao igarapé, e assim ficou até poder ser descarnado, e seus ossos foram queimados, e suas cinzas guardadas nas urnas que ora aguardam o desenrolar da festa, na maloca sob a serra, no mesmo local onde os 60 macacos são assados, dia e noite, em fumaça lenta e persistente.

Só no último dia o povo terá a liberdade do pranto. Antes, pajés e visitantes soprarão yakuana nas narinas. Alguns vão se unir em duplas e realizar o waymou, de diálogo arcaico, de metáforas entrelaçadas, em forma de desafio. No ápice da pajelança que envolve até crianças, estão todos atados ao que vem da montanha e do céu.

Então, os brancos são expulsos da maloca. As cinzas são enterradas ou guardadas por parentes.
E o pranto, ouvido do lado de fora, é tão intenso que parece que o céu caiu sobre a terra.




Durante o funéreo do caçador, morte de um cão expõe crise de liderança
Cercada de floresta fechada, a casa tem quatro portas, que apontam para as trilhas, que levam ao igarapé — onde se toma o banho diário —; à área de caça além do horizonte; aos leitos para pesca (praticada por homens e mulheres com plantas venenosas que tiram dos peixes o oxigênio e os fazem se multiplicar às margens); e às roças onde cultivam suas raízes, frutas e ervas encantadas.




Pela porta que leva ao roçado chega-se à casa de Lourival, que vive em retiro. Maior autoridade espiritual da aldeia, patriarca dos ali chegados, ele não foi a Watoriki nenhuma vez nos dias em que durou a festa. Era visto frequentemente caminhando pelas trilhas com alguma raiz à mão, ou em visitas ao posto da Funai, em seu traje característico: completamente nu, só o cipozinho amarrado à glande, e uma cartola de pierrô decorada com tarjas verdes e amarelas.


O suposto motivo corria à boca miúda: semanas antes, o cão de caça de seu genro, o chefe Davi Kopenawa, teria sido morto a facadas por um dos filhos de Lourival. Os cães comuns não gozam de reputação entre os aldeões e parecem até ter consciência disso, pois apresentam-se diariamente, de forma voluntária, para levar saraivadas na cabeça e se alimentam de restos de pupunha e ossos. Um bom cão de caça, contudo, é altamente respeitado e sua morte equivale à de um “parente”. A morte do cão de Davi tem, além disso, um agravante: remonta ao elo que permitiu a fundação de Watoriki, 25 anos atrás, como refúgio da diáspora de 13 tribos que viviam nas montanhas, dispersas pela expansão da fronteira branca e por conflitos com povos vizinhos (como os moxihatetea, até hoje isolados).




A articulação política fora arquitetada por Lourival e tivera Davi como pivô. Nascido nos anos 1950 no Alto Rio Toototobi (Amazonas) — a pouco mais de 300 quilômetros do leito do Uriracoera, onde, na ficção de Mário de Andrade, nasceu Macunaíma — Davi deixara suas terras após a morte da mãe, de um surto de sarampo trazido por missionários. Aprendeu português para ler a bíblia e acabou virando intérprete da Funai. Militava no Posto Demini, num acampamento abandonado da Camargo Corrêa, encarregada das obras da BR-120, a Perimetral Norte, interrompida depois de causar destruição e mortes (ainda se veem traços de tubulações e do chão tomado pela mata). A essa altura, o posto fazia manobras de atração. Líder de sua tribo, Lourival se deixou seduzir com intenção de encontrar uma brecha e ter acesso a medicamentos e a ferramentas.

Nos sonhos estranhos que Davi tinha, Lourival anteviu vocação xamanística e fez dele seu aprendiz, oferecendo-lhe uma das filhas em casamento. Como a relação sogro-genro é o suporte do modelo de autoridade ianomâmi, o casamento político esvaziou a força do chefe do posto, e Davi foi ao topo da administração regional. Numa cultura na qual o poder é compartilhado pelos chefes de família, em que crianças de cinco anos andam com facões sem serem incomodadas, não há ação coercitiva firme, a não ser quando algo extremamente grave ocorre. Não à toa, o suposto matador se encontrava em fuga na floresta.

Cada vez mais requisitado por compromissos fora da aldeia, Davi perdeu poder local nos últimos anos. No meio da festa, um avião veio apanhá-lo para ir a Manaus e, dali, partir numa viagem de várias escalas até São Francisco, Califórnia, onde iria discursar num fórum da ONU. As lideranças emergentes, da geração do meio, formada por gente que ora serve à Funai, ora a ONGS ou órgãos ligados à saúde indígena — ou se formam como professores na cidade — é uma horda dividida.
Anselmo, que vive a maior parte do ano em Boavista e veio para a festa, vai ao roçado, no importante momento de se colher a mandioca para a confecção do biju, munido de um aparelho de MP3 que toca remixes indígenas e interfere nos sons ritualizados da colheita.

— Estou confuso — confessa. — Mas tenho certeza que ainda farei muito por este povo.
Os mais jovens, garotada que vai à cidade de barco e volta com espelhinhos, gel e o cabelo penteado à Neymar, consideram a reles calabresa trazida pelos visitantes como ouro, metáfora involuntária dos minerais que os brancos arrancaram da terra e que são protegidos pelos espíritos, por não constituírem alimento.
Em meio à confusão, só no último dia da festa, Lourival, que durante todo o período não se deixara fotografar, enfim apareceu na maloca para chorar, com os seus, a morte do jovem caçador, irmão menor de seu afilhado, Raimundo, órfão de pai e mãe, mortos de doença de branco, no tempo em que as 13 tribos vieram da montanha...







População ianomâmi no país foi reduzida a 20% desde o contato no fim do século XIX

Desde o contato no fim do século XIX a população ianomâmi no país foi reduzida a 20%, segundo indigenistas e antropólogos, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Frente de Proteção Ianomâmi, ligada à Funai. Hoje, são 23 mil, dos 40 mil no Brasil e na Venezuela — a maior população humana em alto grau de isolamento na mais extensa área indígena no planeta na floresta tropical.

O massacre também atingiu sua terra, riquíssima em reservas minerais, invadida, na década de 1980, pelo garimpo e por mineradoras, numa corrida do ouro estimulada pelo presidente da Funai à época, o hoje senador Romero Jucá (PMDB/RR). O número de garimpeiros chegou a ser cinco vezes o de ianomâmis. O reconhecimento, em 1992, dos 9,6 milhões de hectares, maior área demarcada do Brasil, de alta relevância para a proteção da biodiversidade amazônica, estancou a sangria.

Recentemente, com a alta de 100% no preço do metal, uma nova corrida se iniciou, mas o complexo foi desbaratado em operações da Funai com o Exército e a Polícia Militar, que retiraram 1.500 garimpeiros, explodiram 22 pistas e afundaram 84 balsas. Sucateada, com orçamento reduzido (R$ 566 milhões para as 692 TIs no Brasil, ou 13% do território nacional) e vítima de interferências de outros órgãos, a Funai resiste como pode.





Mas a grande ameaça vem de Brasília: com projetos de construção de grandes hidrelétricas e novas rodovias (como a Usina Jirau e o reasfaltamento da BR 319, de Porto Velho a Manaus), o governo pode vir a promover uma exploração recorde dos recursos naturais da Amazônia.

Paralelamente, 54,8% da superfície ianomâmi está requisitada por mineradoras, de olho no artigo 176 da Constituição, que libera a exploração com legislação específica. O que trouxe de volta o projeto de Lei 1610, proposto por Jucá em 1996, parado desde então após aprovação no Senado. Um substitutivo de 2012 em fase adiantada de tramitação tem por relator o deputado Édio Lopes, do mesmo PMDB/RR de Jucá, historicamente ligado ao garimpo.

A filha de Jucá é sócia majoritária da Boa Vista Mineração, que tem 90.000 hectares requeridos.
Além disso, tramita uma Proposta de Emenda à Constituição (a PEC 215), determinando a revisão das demarcações em aberto e das homologadas, o que vai contra a Constituição.

Por fim, o projeto do Novo Código de Mineração, de maioria ruralista, procura compensar as limitações impostas à contestada PL 1610 para incluir no documento as terras indígenas, o que é inconstitucional, segundo já afirmou e reiterou o ministério das Minas e Energia.





Ianomâmis: Encontro com o espírito da montanha sagrada

Expedição plena de encantos e perigos leva nativos da castigada Maturacá ao Pico da Neblina, o cume da sua serra ancestral, da qual são os guardiões, crivada do ouro mais cobiçado do país

Após duas semanas de imersão na casa-aldeia Watoriki, Amazonas (relatada na edição de ontem), chegamos à base do Exército de Maturacá, Roraima, em primeiro de abril. A instalação, estratégica, faz o patrulhamento da fronteira com a Venezuela e do maciço do Pico da Neblina, rico em ouro e fechado à visitação. Ao lado do pelotão fica Maturacá, onde moram 1.500 ianomâmis, guardiões daquelas terras e da serra Yaribo, como chamam sua montanha sagrada, vigiada por moxuhemayoma, espírito de ventos, e yoyoma, entidade feminina, que abana as tempestades.

— A gente estava aqui antes do dilúvio — informa Julio Góis, xamã e líder maior, que leva o sobrenome do padre salesiano que catequizou os locais, todos católicos.
Alguns usam crucifixos com os chapéus de pelo de macaco e penugem de pássaros brancos. A explanação, em yanomam — variação local do idioma—, foi durante a grande reunião com a elite xamânica e alguns caçadores, para decidir quem subirá os 3 mil metros junto com a equipe de reportagem.


— Ali moram espíritos, filhos dos demiurgos que criaram o mundo. Onde os brancos veem montanha, eu vejo casa, como esta aqui — prossegue Julio, apontando para o maciço enevoado que esconde o pico, e referindo-se à estrutura de madeira, local sagrado, sem paredes, onde todos se reúnem, reprodução da estrutura montanhosa “real”, invisível para nós. Na cosmologia ianomâmi, os brancos, não-humanos criados a partir da espuma amorfa de onde tudo surgiu, já eram previstos há séculos nas visões dos xamãs.

A pressa de partir é grande: tumultuada, a aldeia de Maturacá é em tudo diferente daquela de onde viemos. Cortada por uma avenida de terra batida cheia de cães sem vacinas, que devem somar 500, tem casas construídas com técnicas que misturam seus costumes com os urbanos. Parece uma pequena cidade pobre. Seus habitantes não usam pinturas, penas nem miçangas, e estão na maior parte do tempo vestindo roupas comuns. Apesar de os ianomâmis não beberem álcool, sabe-se que a cachaça circula, embora não se ache na vendinha.





Desacostumados à caça rotineira, quando o fazem, usam espingarda. Daí a dificuldade do chefe para arregimentar os 20 membros para a ascensão: muitos nunca subiram lá e a maioria jamais foi ao cume; outros, são guias de turistas clandestinos; pelo menos metade já se envolveu com o garimpo ilegal que ainda opera, apesar de os ataques da Frente de Proteção Ianomâmi, em conjunto com o Exército, ter desbaratado a maior parte. Viver numa aldeia semiurbana, altamente sedentarizada, é difícil, e os garimpeiros pagam bem.

Há, mesmo — e todos sabem disso —, pelo menos um ianomâmi que explora ouro com máquinas, e que tem uma balsa, oculta. A população indígena, pela Constituição, pode garimpar em área protegida, mas só à moda antiga, com bateias, o que é vedado aos brancos. Para conseguir que os 20 expedicionários, enfim escolhidos, busquem em suas casas arcos e flechas, lanças, penas e tintas, Julio tem que falar grosso, e em português.
— Vamos acabar com essa putaria!

Seu rosto grave, com sulcos laterais, lembra as fisionomias de estátuas incas (parece que eles estiveram por aqui, em busca de ouro) o que é comum entre os ianomâmis dessa área, que contam existirem escadarias pré-colombianas secretas no maciço. Descendente de nativos que presenciaram a chegada das missões, e cuja esposa, cabocla, vestiu as mulheres nuas da tribo com roupas que cobriam suas vergonhas, Julio já fez de tudo: trabalhou para o exército e para o garimpo, foi intérprete, professor, guia. Ele teme a ascensão a Yaribo com tanta gente. Tudo vai depender dos espíritos principais e dos auxiliares, formas originais das plantas, dos animais, da terra, da água.




Cabe ao líder dos brancos e comandante da expedição, Sebastião Salgado, dar um outro contorno aos objetivos da viagem e pedir ajuda, enquanto distribui os kits com sacos de dormir, casacos, redes, canivetes, lanternas, roupas e equipamentos para enfrentar o frio, a chuva, o breu.
— Essa missão é para que os guerreiros daqui reencontrem sua montanha sagrada e ajudem os brancos a alertar o mundo e evitar que as mineradoras destruam a terra-floresta ianomâmi e que o governo corte seus rios com mais estradas e usinas — alerta, referindo-se aos Projeto de Lei 1610 e PEC 215 que tramitam aceleradamente no Congresso e podem promover uma nova corrida do ouro, liberando as mais de 600 licenças de mineração pendentes: — Por isso, eu quero que vocês sejam os ianomâmis valentes que têm que proteger o Brasil e o Mundo, aqui, nesta montanha, símbolo do Brasil, de onde podemos ver a floresta toda, e depois pensar sobre como usar essa região para o ecoturismo e a extração sustentável para não ficar reféns do dinheiro ilegal.

É sob a égide destas palavras que a expedição parte no dia seguinte, de barco, até o “porto” ao pé da grande montanha. Cuja subida é árdua e levará três dias. Embora haja trilhas, o solo é cheio de raízes que ora apoiam a caminhada, ora escorregam como sabão. Árvores espinhosas nas quais não se pode pôr a mão, folhas de bromélias que são como espadas que podem furar os olhos, barrancos que se movem à beira de precipícios, buracos ocultos, pontes de bambu que atravessam cursos baixos de rio e descidas agudas alternadas com picadas: esse é o ambiente, sem chuva. É preciso evitar as cobras e andar em grupo para não dar chance a felinos.

Os acampamentos são montados na hora, com vigas cortadas a faca e recolhidas na mata pelos ianomâmis, pelo mateiro Raimundo (com rádio onde passam as notícias da Nacional Amazonas) e pelo indigenista João Catalano, da Frente de Proteção. A cobertura de lona, principalmente quando chegamos à base para a subida final, cederá várias vezes às tempestades que vêm do alto.





Às margens de um rio pedregoso claramente remexido pelo garimpo a base a 2.300 metros de altura é coberta, a maior parte do tempo, por uma névoa que esconde o sol e impede as roupas e as redes de secarem, nos 12 dias que ali ficamos. O banho é geladíssimo, em águas que, dizem alguns, têm sangue de briga de branco com índio.
— Índio não — adverte Julio, em português, na dificílima, quase letal, subida à Serra Montilla, nome de rum, dado por garimpeiros e ianomâmis, no tempo em que, pelos anos 1980, a um grau da Linha do Equador, funcionavam ali duas cantinas e um bordel. Dizem que a comissão para um político ligado à administração indígena era enviada em latas de Leite Ninho.
— Se não é “índio”, o que é? — pergunto.
— “Índio” é coisa de branco. Coisa de Pedro Álvares Cabral. Nós somos ianomâmis. Estávamos aqui antes do dilúvio. Nunca mais repita “índio”, e isso é uma mensagem dos meus parentes.
Sozinho com os ianomâmis, eu havia gritado “estou aqui com os índios” a um grupo que estava perdido de nós outro lado da serra.
Rumo ao alto da Serra Montilla, vestígios de garimpo recente: pilhas, lixo, uma garrafa de cachaça Pirassununga, pedaços de transístores de rádio espalhados sobre o calcário branco e amarelado.
— Aqui tem muito ouro — adverte Orlando guia de montanhas, com dificuldades de articular as palavras. Anos atrás, ele teve um derrame e foi abandonado por um paraquedista-espetáculo mundialmente famoso, a quem servira de carregador e guia, sem jamais ter sido pago, de acordo com os autos de um processo que corre.



O espírito dos ventos fechou o tempo e a tempestade, que ameaçava tornar a voltar, plena de paredes verticais, um lamaçal se anunciou. Julio tirou de um compartimento sua yakuana, pó sagrado, e puxou o rito xamânico, pedindo a yoyoma para afastar o perigo. O perigo jamais se afastaria até o fim da expedição. Mesmo assim, dias depois, os guerreiros de Maturacá, com todas as suas contradições e segredos, após subida traumática, abraçaram a bandeira esfarrapada do Brasil, cravada nos poucos metros do ponto culminante do país. Só assim foi possível, durante a volta, dias depois, em descida acelerada do maciço, com a comida em falta e as energias no fim, contemplar as paisagens serranas que lembram jardins de Burle Marx, lá no alto, e os igarapés cor de ouro pintados pelo sol, que se multiplicam na parte baixa, o calor de volta, a terra firme.








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quinta-feira, 19 de junho de 2014

A primeira torre híbrida eólica e solar



A energia eólica é uma solução, mas o s parques eólicos on e off shore, um imenso problema ambiental largamente criticado por devastação de áreas nativas, impacto em cardumes e até formação de novos monopólios. Abaixo, em "Mais informação", encontram-se muitos artigos linkados sobre os impactos dos parques eólicos em larga escala. Contudo, essa nova tecnologia de torre híbrida, pode vir a ser a solução para os impactos dos parques e uma forma de cogeração mais limpa.

Baseada em Maryland (EUA), a torre eólica e solar faz cogeração de energia usando 2 matrizes limpas a partir de turbinas na base de uma torre que geram seu próprio vento. A empresa ressalta que, uma vez construídas (usando materiais, equipamentos e técnicas convencionais), suas torres são capazes de operar durante todo o ano independente da velocidade do vento e praticamente sem pegada de carbono, consumo de combustível ou a geração de resíduos.

Descrita pela empresa como o primeiro híbrido solar-eólico em tecnologia de energia renovável no mercado, a torre no centro do sistema gera uma corrente descendente que impulsiona as turbinas eólicas posicionadas em torno de sua base. Isto é feito utilizando uma série de bombas para levar a água para o topo de uma torre de 685 m. de altura, onde é moldada através da abertura como uma névoa fina. A névoa, em seguida, evapora-se e é absorvido pelo ar quente e seco, arrefecendo assim o ar e tornando-o mais denso e mais pesado do que o ar mais quente do lado de fora da torre.

Este ar refrigerado a água, em seguida, cai através da torre oca em velocidades de 80 km/h quando então atinge a parte inferior da torre e é dirigido para os túneis de vento que rodeiam a base, através das turbinas eólicas. Embora o sistema demande grandes quantidades de água, a maior parte da água liberada na parte superior da torre é capturado na parte inferior e reciclada através do sistema, sendo bombeada de volta para o topo.

A empresa afirma que o sistema pode gerar eletricidade 24 horas por dia, 365 dias por ano, quando instalado em áreas quentes e secas - embora a produção no inverno sofra alguma redução. Dependendo da localização geográfica da torre, a geração de eletricidade também pode ser complementada com o uso de pás verticais eólicas, que captam e canalizam o vento predominante.






Fonte: Solar Wind Energy Tower



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Animal Print em crochê e tricô






"Ter cara de rica envelhece", Danusa Leão

Animal print está na moda e, com o inverno, as coleções tendem a trazer também muita pele em seus modelos. Nenhum dos dois faz exatamente a minha cabeça, tanto as peles quanto as estampas animais são, na minha modesta opinião, geralmente de gosto duvidoso e tendem a deixar os modelos marcados demais, difíceis de serem reaproveitados no futuro e de manutenção cara, por exigirem lavagem à seco entre outros cuidados. E as peles ainda são um atestado de perversidade, não dá mesmo.





Mafê Senger, persona gratíssima nesse blog amador, que já havia me presenteado com um lindo xalecol de Mobius entre outras bossas em crochê, enviou-me muitos links de animal print no material - o que pode ser muito mais interessante, até porque geralmente a estampa animal tem uma proposta lúdica e é mais atrativa em materiais alternativos como plástico de galochas e pelúcia sintética de falsas estolas e plumas, justamente descaracterizando a seriedade da coisa. O próprio crochê (e tricô), além de sustentável por permitir reaproveitamento total desfazendo a peça, já mereceu uma postagem exclusiva "A Sociedade das Agulhas"

E nunca é demais lembrar, esses blazers, vestidos e demais modelitos caríssimos em oncinha, zebra e tigrados que vemos por aí nas peruas da vida, envelhecem muito suas usuárias. Quando acompanhados de dourados então, nem se fala!
Que tal um "aqua wolf felted scarf" bacanudo como o abaixo? Bem mais moderninho do que aquela "estola de marta" que sua avó usava quando arrumava o cabelo com laquê...







Para fazer os 4 modelos abaixo, presentes em dúzias de sites, alguns tutoriais podem ser vistos nos blogs linkados (mas não tem muita ciência, segundo as entendidas):
Wipster: Foxy Mr Fox
Tinyowlknits: Mr Fox stole my heart




Os animais são apenas sugestões, a cobra adapta-se facilmente a um jacaré e o leão, a uma pantera negra, tigre, etc.






















Para meninas de todas as idades, o padrão de oncinha do Tricô em prosa que virou um gorro infantil, mas pode ser replicado em outros modelos, como cardigãns, vestidos, cachecóis e até maiôs de banho:












Para quem vai colocar a mão na massa, um padrão de girafa do site artfire e, abaixo, a sugestão em zebra que é encontrada por aí do pano de prato ao cobertor de bebê.













#LoucaPorSilverWolf   #TopandoCachecolJacaré

Para comprar as scarfs incríveis de lobo, raposa e alce, que começam essa postagem, o site é polonês (e careiro): ETSY Celapiu
Enrole um alce no seu pescoço você também e saia por aí fazendo carão que nem as mocinhas abaixo. Alce tem chifre, mas é hype!




sábado, 14 de junho de 2014

Como funcionam os aquíferos



A água que ninguém vê

Os aquíferos já são muito usados pelos brasileiros, mas ainda pouco conhecidos pela ciência. Pesquisadores e governo buscam novas tecnologias para mapear esses reservatórios subterrâneos a fim de preservá-los de contaminação e garantir seu uso sustentável.
EM ABRIL DE 2012, O INDIANO PRADEEP AGGARWAL, diretor do programa de recursos hídricos da Agência Internacional de Energia Atômica, pegou um voo de Viena para São Paulo. O motivo da viagem: uma “água milenar”, genuinamente brasileira.
Na bagagem, Aggarwal trazia os resultados da análise de uma amostra coletada no aquífero Guarani, importante manancial subterrâneo que serve quatro países do Mercosul, incluindo o Brasil. Os dados preliminares já tinham sido antecipados por e-mail, mas eram tão impressionantes que ele achou necessário reunir-se pessoalmente com os geólogos Chang Hung Kiang e Didier Gastmans, ambos do Laboratório de Estudos de Bacias (Lebac) da Unesp em Rio Claro.
Kiang e Gastmans eram os únicos pesquisadores brasileiros envolvidos num projeto de datação das águas do Guarani. A amostra, analisada num laboratório dos Estados Unidos, revelou que aquela água retirada do aquífero em Valparaíso, região de Araçatuba (SP), havia chegado ali nada menos que 600 mil anos atrás.
“O pensamento corrente era que as águas do Guarani não teriam mais do que 40 mil anos, como haviam mostrado estudos anteriores”, recorda Gastmans. Essa percepção do meio científico tinha uma explicação. Até então, as pesquisas haviam usado o carbono 14 como método de datação, que só pode determinar a idade de águas de até 40 mil anos. Os brasileiros trabalharam com outro isótopo radioativo, o criptônio 81, que exige análises mais complexas, mas em compensação permite datar águas de até 1,2 milhão de anos.
O projeto de datação das águas do Guarani com criptônio 81 foi iniciado pelo Lebac em 2009, com o financiamento da Agência Internacional de Energia Atômica. A iniciativa exigiu a utilização de um equipamento específico, desenvolvido nos Estados Unidos e aperfeiçoado no Brasil. “A proposta do projeto é fazer a datação em vários pontos do aquífero, abrangendo todos os países em que ele está presente”, informa Gastmans.
Não é propriamente a curiosidade arqueológica que move o esforço de geólogos e órgãos internacionais na tentativa de definir a idade das águas dos mananciais subterrâneos. “A importância da datação é oferecer subsídios para a gestão desses recursos”, destaca Kiang, que coordena o projeto do Lebac. “Se uma água de 600 mil anos for retirada de um aquífero, serão necessários mais 600 mil anos para que ela seja reposta.” Para os pesquisadores, a idade das águas subterrâneas é na verdade um indicador da taxa de renovação de um recurso cada vez mais crucial para o futuro da humanidade.
Os mananciais subterrâneos são estratégicos e a tendência é que sejam cada vez mais explorados para atender às necessidades de um planeta que só fica mais populoso e cujas fontes superficiais de água doce estão cada vez mais contaminadas. A escassez de água já é um grave problema em muitas regiões do globo, e promete vir a se tornar um dos principais estopins de conflitos entre os países. A fim de estimular a colaboração entre os países em torno desse recurso essencial, a ONU declarou 2013 o Ano Internacional de Cooperação pela Água.
É nesse cenário que as pesquisas sobre águas ocultas ganham cada vez mais destaque. Esse recurso escondido abaixo de nossos pés é cerca de cem vezes mais abundante que aquele que aflora na superfície, na forma de rios e lagos, de acordo com a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas).
Estima-se que o volume total dos mananciais subterrâneos, no mundo todo, ultrapasse 5 milhões de km3. Segundo a Unesco, pelo menos metade da população mundial é hoje abastecida por essas águas. Praticamente todos os países as utilizam para suprir as suas necessidades. Em alguns deles, como Alemanha, França e Itália, a dependência de aquíferos para o abastecimento público varia de 70% a 90% do total de água consumido. Para acessar esses reservatórios, já foram perfurados em todo planeta 300 milhões de poços, 100 milhões somente nos Estados Unidos, ainda segundo a Unesco.
O conteúdo dos aquíferos tem sido usado para tudo: nas residências, na indústria e no comércio, na agropecuária, no mercado de água mineral e até no turismo, por meio das estações termais.
No Brasil, o grosso da água subterrânea destina-se ao abastecimento público. O Censo 2000 mostrou que 61% da população brasileira utiliza água de poço para fins domésticos. No Estado de São Paulo, nada menos que 80% dos municípios dependem desse recurso, parcial ou integralmente. Apesar disso, os aquíferos são algo muito pouco conhecido pelo grande público, o que se deve em grande parte à impossibilidade de vê-los e à complexidade de estudá-los.
“Um aquífero não é um rio dentro de uma caverna”, esclarece Didier Gastmans, para desconstruir a imagem que muitos de nós fazemos de um manancial subterrâneo. Para complicar ainda mais as coisas, acrescenta ele, as águas do andar de baixo do planeta repousam sobre terrenos bem pouco homogêneos.
Esponja e fratura
“O conhecimento sobre águas subterrâneas tem uma relação umbilical com a geologia, porque é entre as formações geológicas que elas ocorrem”, explica Kiang. Isto é, para compreender os aquíferos, é preciso conhecer os vários tipos de rochas dispostas no subsolo como as camadas de um sanduíche. Formadas em diferentes eras geológicas, essas rochas podem ser porosas, resultantes da deposição de sedimentos, como grãos de areia ou argila; ou cristalinas, como basalto e granito, originados de lava de vulcão.
O aquífero Guarani, por exemplo, foi formado pela deposição de duas sequências de rochas, uma sedimentar e outra vulcânica, durante os períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo da era Mesozóica, entre 248 milhões e 65 milhões de anos atrás, época em que os grandes dinossauros ditavam as ordens na Terra.
Os melhores aquíferos, segundo os especialistas, são aqueles formados por rochas porosas. “Quanto maiores os grãos que formaram essas rochas, maior também o espaço existente entre elas”, diz Kiang. Na prática, isso significa uma maior capacidade de armazenar água. “É como se [o aquífero] fosse uma esponja encharcada de água”, acrescenta Gastmans.
Já nos aquíferos cristalinos, formados por rochas impermeáveis, a água se acomoda entre fraturas causadas por terremotos que chacoalharam a crosta terrestre há milhões de anos. Esse tipo de reservatório subterrâneo armazena menos água, pois o líquido precisa procurar um caminho entre as fissuras. “A prospecção de água no aquífero cristalino é muito mais complicada do que no poroso, porque a perfuração do poço precisa encontrar as fraturas na rocha”, conta Gastmans.






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O rio Hamza tem 6.000 km de extensão e corre embaixo do rio Amazonas, a uma profundidade de 4.000 metros. A vazão do rio subterrâneo é maior do que a do rio São Francisco. A reserva de água recebeu esse nome por causa do pesquisador Valya Hamza. Ele diz que ela pode ser explorada, mas não é economicamente viável.












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