quinta-feira, 26 de março de 2015

Planta na rua: a pracinha da Cardeal Arco Verde com Monte Alegre



Domingo, 22 de março, pude finalmente participar de uma oficina do pessoal do Planta na Rua, que vinha acompanhando à distância há tanto tempo.
São muito queridos e foi uma experiência ótima e extremamente organizada. Na pracinha do entrocamento da Rua Monte Alegre com Cardeal Arco Verde em Santa Teresa, antes abandonada e hoje, uma hortinha urbana em processo de expansão.

Vou deixar as fotos falarem por si, experiências autogeridas não precisam de tanta teoria.







Se o seu filho não sai da frente da televisão, pede um game diferente por mês e está cada vez mais gordo, quem sabe uma hortinha despretensiosa não pode mostrar que existe muita diversão fora do shopping e da internet.




Como se prende um xaxim:






Os pés de rúcula que eu plantei:

Antes



Durante



Depois



Um pé de boldo!



As mudinhas recém plantadas, esperando a chuva que veio horas depois:





Sistema simples de hidroponia em pvc em leve declive:




E quando você pensa que não pode ser melhorado, uma turma levanta e pinta a praça. E o espaço que era cinza e praticamente um matagal abandonado, torna-se colorido e cheio de plantas.



Um sonzinho bom rolou a tarde toda, soube pelos organizadores que o empenho foi grande e depois que saí de lá, ainda plantaram um limoeiro, uma aceroleira, uma mangueira e uma goiabeira. Além de frutos, vai atrair pássaros e dar sombra.



As crianças são as que mais se divertem!





Se uma turma apropriou-se de uma pracinha ou terreno baldio do seu bairro, não crie caso. Se estava abandonado, que diferença faria para você? E poucas coisas são mais simpáticas do que uma horta comunitária. Nossas praças mais parecem terrenos baldios e lixões abandonados, um pouco de verde e espírito comunitário nunca são demais. No mínimo você vai ter um local melhor para passear e conversar, levar os bebês do bairro, jogar cartas e xadrez com um vizinho.
Antes dessa postagem fechar, outros voluntários já haviam aparecido com pelo menos uma muda de pitangueira e um pé de limão galego em doação para futuros plantios.
Moradores bem intencionados, nem pensar em colocar veneno para rato nas mudinhas, algum desavisado vai colher e comer depois!


O mutirão está na TV UOL, vídeo de 2 minutos no link abaixo:

Contra abandono mutirões renovam praças no rio com hortas comunitárias






Mais informação:
Na Jureia: o SNUC
Goura Vrindrávana

O El Nagual em Santo Aleixo, RJ
3 dias bioconstruindo em Santa Teresa
Pólo de agricultores orgânicos do Brejal, RJ
Mosteiro Zen de Morro da Vargem, Ibiraçu, ES
A horta urbana da Pedro Américo no Catete, RJ
1 semana com a Solarize e 2 dias com a PermaRio
Ecorgânico, uma nova opção de orgânicos no Centro do Rio

segunda-feira, 23 de março de 2015

Kombucha, missô e shoyu caseiro: as fermentações da mente criativa de Ana Sofia Castro

Ana Sofia Castro é uma das leitoras compradoras do Festa Vegetariana. Quando da venda do Festa, nos comunicamos muito e foi quando eu soube que ela produzia e vendia missô e shoyu de produção caseira, além de ser doadora da panqueca de kombucha.
Enviei para ela pó de juá e, se não me engano, um pouco de kefir. Recebi de volta, a panqueca de kombuchá e missô caseiro.

Não segui com o kombucha por falta de hábito, deveria ter insistido. Mas fiquei fã do missô dela, que ilustra o início dessa postagem. Missô é uma pasta de soja fermentada com múltiplos usos, o mais comum é a missoshiro, sopa da pasta dissolvida em água quente. É um alimento medicinal, de fermentação natural, considerado probiótico e que reconstitui o sistema imunológico e ajuda a eliminar o muco. Os japoneses usam missô para temperar tudo, fazem dele até molho de salada diluído em água e óleo de gergelim, mas o uso mais comum é mesmo o caldinho de missô, a missoshiro, que deve ser bebida antes de cada refeição e até em jejum.
Eu gosto de tomar pela manhã, acho uma boa maneira de limpar o organismo.





Intrigada sobre soja transgênica e como seria esse processo de fermentação, perguntei tudo à Ana Sofia, que me enviou a resposta abaixo:

"A soja que eu compro e o arroz, é orgânico sim  (pelo menos os das ultimas três levas), só que tenho tido problemas em conseguir esse material, pois minha fonte foi embora e como faço poucas quantidades...bom já viu né...aqui no Brasil pequeno produtor não tem vez.
O material para o missô é: arroz, soja, a cultura aspergilos (que comprei de Portugal) e o sal (que eu uso somente o marinho). O processo é lento, pois precisa cozinhar o arroz no vapor e só depois inocular a cultura para sua perfeita fermentação mantendo a temperatura em no máximo 40ºc, mais do que isso a cultura morre e a menos de 36ºc a cultura não se desenvolve no arroz, demora mais ou menos de 3 a 4 dias dependendo da temperatura ambiente, isso sem falar na completa higiene de material e de quem manuseia a cultura, pois qualquer fungo estranho contamina, somente depois de todo o arroz impregnado pelo aspergilos é que posso juntar a soja e o sal, então moemos todos juntos colocamos em sacos próprios sem ar e deixamos fermentar lentamente, um processo que pode durar no mínimo 4 meses. O missô de 4 meses é o missô claro e jovem - eu particularmente não o aprecio, gosto do missô envelhecido, ou seja, o que já tem mais de 1 ano, esse tem características bem marcantes além de sua cor bem mais escura, como o que eu enviei a você."


Ana Sofia também é ceramista e professora de cerâmica, as fotos abaixo são de obras suas e de suas alunas:








Para quem não sabe o que é kombucha, imagem do RawForBeauty.com e 2 links estrangeiros:
18 healthy reasons to sip kombucha
How to make kombucha tea at home



Para contactar Ana Sofia, que agora também é chef vegana ecológica:  www.comidaecologica.com.br http://sofiafilosofica.blogspot.com.br  (ou sofiafilosofica@hotmail.com ou para chefanacastro@gmail.com)




Mais informação:
Kefir e Iogurte
Gripes e resfriados
Refrigerante caseiro
Livro Festa Vegetariana
Cães também bebem kefir!
UDON: o melhor café da manhã
Slow Tea: chás e especiarias orgânicos 
Imagem do dia: S. Charles, o vendedor de juá
O emplastro de inhame com gengibre (e argila)


domingo, 15 de março de 2015

Porque eu nunca vou para as ruas.



"NÍVEL DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA: VAI PROTESTAR CONTRA A CORRUPÇÃO COM A CAMISA DA CBF", DeBoas na Revolução


Eu não fui carapintada, nem participei dos protestos em 2013 e tampouco das manifestações contra a Copa em 2014 (e observe que moro no bairro do Maracanã). Nem imagino o que seja amarrar uma faixa branca na janela pedindo paz (ou basta).

Então, agora, eu deixo os artigos de outras pessoas explicando (de novo) porque não acredito nessas manifestações e continuo achando que esse contingente serve mesmo como massa de manobra para golpes, CPI´s engavetadas, delações premiadas e até arquivamento de processos criminais.

Como nunca é demais: Foram as mesmas pessoas que protestaram em 2013, que, 1 ano depois, reelegeram os mesmos políticos de sempre, inclusive os capazes das piores manobras para continuarem elegíveis e inclusive ficha limpa.

A maior forma de protesto é sempre não consumir, se você ignora esse sistema e só vota em quem acredita e conhece (ou não vota em ninguém), o sistema (e suas bancadas ruralistas, evangélicas, assim como os 2 megapartidos atuais: PT e PMDB) acaba. A descentralização começa com você e reaça é reaça sempre, de esquerda ou direita. 

Foi gente bacana como você, o pessoal que trabalha na mesa ao lado da sua, seu vizinho e a galera da pelada de quarta-feira que financiaram a bolha imobiliária, a FriBoi (e a Globo e a Monsanto), reelegeram o Bolsonaro como deputado federal com maior número de votos do país (além dos filhos dele, do Feliciano e dos mesmos políticos que votaram a favor do Código Florestal) e inclusive compraram dollar como uns alucinados até o valor dele ultrapassar os R$3,00 (e o mesmo processo se aplica às ações da Petrobrás, mas no sentido contrário).

Na verdade, eu vou para as ruas todos os dias, quando não entro no shopping e compro no brechó ou bazar de caridade, quando não compro nada em soja ou milho trans e priorizo a feira de orgânicos do meu bairro, quando subo a favela para dar aula aos moradores, quando escolho passar minha noite de natal distribuindo comida e atenção à moradores de rua, quando tirei 3 cães da rua, quando acordo mais cedo no domingo para ajudar nos mutirões de reflorestamento, quando compro em sebo e leio o mesmo livro da livraria mas sem derrubar uma árvore da monocultura de eucalipto e, principalmente, quando eu escolho qual informação vou consumir e com quem vou me relacionar. 
Você pode ir à ruas até dentro de casa, quando reusa a água da máquina de lavar roupa, quando abre um livro no lugar de passar a tarde pendurado de fofoca no telefone ou assistindo porcaria na televisão.
Em todos esses anos, só me senti oprimida pelas pessoas que são justamente as que se acham politizadas e opiniáticas. Os que não ligam para politicagem e só estão aí para quebrar o galho de quem está na pior, nunca me sacanearam, por esses sempre fui tratada com respeito. O respeito nos uniu em nossas diferenças, sem pelegar (se é que alguém ainda acredita nisso). Aliás, em todas as ocasiões em que fui convidada para reuniões e debates políticos, sempre perguntei se alguém ali era voluntário, se pelo menos participava da hortinha do bairro e claro, que nenhum dos revolucionários em questão com seus ânimos inflamados estava efetivamente fazendo algo que realmente mudaria o mundo.
Se a corrupção te incomoda tanto, provavelmente você é ainda mais corrupto do que os políticos que elege. As mesmas pessoas que vi hoje no metrô de verde e amarelo, são as que não perdem um episódio do Big Brother e, se bobear, estavam conversando sobre isso na marcha horas depois. 
E isso não as transforma em manifestantes politizados, mas num bando de coxinhas, que vão sonegar tudo que puderem na declaração do imposto de renda.
Eu sempre fui em mim a mudança que quis ver no mundo e isso, acima de tudo, me libertou de um mundo que está longe de ser o ideal.

Se não estiver muito a fim de ler tudo abaixo, o pessoal da Mídia Ninja tem divulgado links muito parecidos e para quem quiser mais leveza, o pessoal do De Boas na Revolução  tem divulgado os melhores memes, frases, fotos de manifestantes com Aécio de camisa verde e amarela da seleção e material afim. No Facebook, é claro.

Sobre os carapintadas, onde eu felizmente nunca me incluí: Seu líder (e galã), Lindberg Farias, foi citado junto com o político de quem ele pediu a cabeça, Fernando Collor, na lista negra do Janot, já que ambos hoje são colegas de Senado. Abre o olho, eu já havia cantado essa pedra há 2 anos, a foto dos dois efusivamente abraçados no Congresso já estava na postagem  Ei reaça, vaza dessa marcha! (E vai dar teu Golpe de Estado em outro lugar) .




Então, rolou panelaço. Rolou xingamento não muito nobre à presidente e tá rolando muita, mas muita incoerência, hipocrisia e falta de querer ouvir, de querer ponderar e de unir esforços contra os verdadeiros vilões: nós mesmos.

Às vezes dá um nó na garganta com as coisas raivosas que tenho lido e, confesso que por vezes (muitas) fico completamente desesperançosa de que haja alguma solução para esta que chamamos de pátria (conceito do qual tenho buscado me desapegar cada vez mais - mas isso é assunto para outro momento!).
Eu não vou às ruas no dia 13 nem no dia 15. Para mim a eleição acabou e não sou a favor do impeachment, mas considero o protesto popular uma das formas de lembrar ao governo de que todo poder emana do povo (e não de Deus como querem algum), mas o que está em pauta - no caso a queda da Presidente - não é a minha bandeira. Ando muito mais preocupada com a bancada evangélica e as sandices de Eduardo Cunha e Renan Calheiros do que com o resto.

Além disso, tendo a concordar com o senador Cristovam Buarque, de que um impeachment da presidente nada resolve, nada agrega, nada acalma. Apenas enfraquece a nossa já frágil democracia. Concordo também como ele de que a insatisfação é geral com a classe política e em tese todos - ou quase - deveriam ser removidos de seus postos. Me lembrei novamente da minha monografia na qual defendia a possibilidade de cassação de mandato pelo povo também dos membros do Legislativo e não apenas do Executivo.

Mas o que é que levou então à gota d'agua para toda essa revolta? Será que os petistas estariam agindo da mesma forma caso Aécio tivesse ganho? Estariam acusando o PSDB de estelionato eleitoral quando ele cortasse ou reduzisse o orçamento com programas sociais? Talvez sim, talvez não! Talvez estivessem apenas fazendo o que eles sempre souberam fazer muito bem: OPOSIÇÃO. Ou talvez estivessem tentando instaurar a tal da ditadura bolivariana (piadinha, tá gente!?). Difícil saber a essa altura.

Alguns amigos revoltados bradam com vigor: "ela mentiu na campanha"! Já ouvi também em várias situações que o que houve foi um "estelionato eleitoral". Esse tipo de colocação me causa tanta estranheza quanto a repressão aos protestos que muitos petistas tentam disfarçar de superioridade: "revoltinha se cura com análise e calmante" não condiz com quem tanto foi às ruas contra governos anteriores!
De um lado, "não cumprir promessas de campanha" não me parece tenha sido inovação eleitoral da sra. Dilma Roussef, muito menos protestar e pedir impeachment sempre que rola um escândalo, foi obra original desta "nova direita".

Eu não estou nem um pouco surpresa com as medidas tomadas pelo governo. Inclusive discuti com alguns na época sobre como qualquer um deles (Dilma ou Aécio) teria que tomar essas medidas que só não foram feitas antes por razões eleitorais. Aliás, só pode estar surpreso quem não acompanha minimamente o cenário econômico do país e do mundo. Surpresa mesmo estou é com a revolta de quem esperava - e clamava - por todas essas medidas para recolocar o país nos eixos com Aécio e agora tá putaço aí xingando muito no Twitter. Um tanto boquiaberta estou com a defesa dos atos do governo por parte dos que quase me mataram quando falei do tal "mercado" ("o mercado não existe! O que existe é o POVO!" foi uma das respostas que ouvi em discussões pré-eletorais) e de que ela teria que tentar acalmá-lo de alguma forma justamente tomando essas medidas. Coerência a gente certamente não vê por aqui. Até que ponto vai a ideologia partidária para levar pessoas a serem frequente e reiteradamente inconsistentes apenas para apoiar um lado, quando deveríamos estar todos do mesmo lado: o do POVO.

Por que essa revolta toda agora que ela tomou medidas que todo mundo sabia que seriam tomadas e que eram necessárias? E por que não são os meus amigos petistas que estão na rua contra o governo que "traiu" seus ideais tirando dinheiro da educação (até do Pronatec - piada pronta), aumentou impostos e nomeou um Ministério que agradasse e acalmasse o tal do mercado? Cadê o povo que compartilhou artigos acadêmicos que demonstram a ineficiência de um regime de austeridade em tempos de crise agora? Pois é... estão defendendo a austeridade... vai entender! Cadê os eleitores do Aécio felizes por ela ter tido coragem de fazer o que queriam que o PSDB fizesse - as tais "medidas impopulares", flexibilizando os benefícios dos trabalhadores que todo empresário reclama que freia a competitividade? Não tem... galera abraçou o posicionamento pré eleição e não tem a menor vergonha de mudar de argumento/fundamentação desde que não mude de lado! E ai de alguém que tente ponderar, que tente olhar o outro lado, que tente ser solidário: coxinha, petralha, bandido, corrupto, conivente, vagabundo ou em cima do muro são os adjetivos atribuídos a essas pessoas (entre as quais me incluo).
O fato é que para além da revolta, os argumentos debatidos me soam simplistas e mal explorados de ambos os lados.

Em nada ajuda o Juca Kfouri (apenas como exemplo de muitos) dizer que a revolta representa apenas "o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade". Isso não é verdade. E esse tipo de argumento que generaliza, que diminui o outro, que ignora a complexidade do assunto, apenas empobrece o debate e faz com que muitos deixem de questionarem-se sobre suas reais inconsistências e incoerências e, porque não, verem as coisas por um outro lado. Relegar TODAS as pessoas revoltadas com o governo a um bando de playboy que não quer dividir o bolo é simplista demais e faz com que a reação instintiva do interlocutor seja descartar o argumento como um todo. A não ser que o Juca esteja escrevendo apenas para si e para aqueles que pensam como ele esse tipo de texto serve tanto quanto compartilhar vídeos e memes idiotas em grupos de Whatsapp. Ninguém vai mudar sua opinião ou refletir sobre algo porque você mandou um meme retardado ou um vídeo editado do Lula falando merda! Isso só irrita! Só afasta! Nota: se você muda de opinião por conta desses memes volte duas casas!

Por outro lado, colocar a solução de problemas tão complexos no impeachment da Dilma é tão ou mais simplista quanto. ELA não é o problema! Ela é apenas mais uma rodinha de uma engrenagem muito maior. "Ahhhh mas então você acha melhor não fazer nada?" Não, eu acho melhor fazer algo sempre! Eu acho melhor ler, se inteirar (sim você elite intelectual ao menos pode fazer isso!). Participar da política, participar de Conselhos Municipais, acompanhar votações no Congresso e pautas do STF, saber o que seus candidatos no legislativo estão fazendo e cobrar deles o que prometeram nas suas campanhas. Ok, ok, lembrar em quem você votou já seria um grande avanço!

Esses dias falei que eu estava me sentido de certa forma sensibilizada pela situação do ser humano Dilma. Comentei que fico pensando no tamanho da pressão que ela deve estar suportando, em como não deve estar sequer dormindo ou descansando. Talvez chore em um canto. Talvez se pergunte porque escolheu esse caminho da política... talvez tema pela sua segurança. Certamente ela está pagando por erros que não são apenas dela! Certamente não foi ela quem inventou a corrupção e muito menos a má administração pública! Também não foi o Lula e nem seu antecessor. O Brasil é mal administrado desde que Pedrinho botou seus pezinhos aventureiros na Bahia. Não preciso nem dizer o que ouvi como resposta né? Ajoelhou...

Mas então, para não dar uma de Juca e pregar para convertido, gostaria de fazer desse post um convite.
Um convite à reflexão genuína. De tu com tu mesmo, nem precisa compartilhar com ninguém e mostrar que está olhando para o outro lado...
O convite é olhar para si. A única forma de mudar o mundo é mudarmos a nós mesmos e a mudança só funciona de dentro para fora.

Precisamos olhar para os nossos próprios defeitos com mais honestidade e olhar para fora com mais carinho e menos julgamento! Falta olhar-se no espelho e enxergar a própria podridão e sordidez e, ao invés de apontar sempre os mesmos culpados, responder-se com a sinceridade mais cruel possível: o que VOCÊ aí do espelho está fazendo para mudar o mundo?

Como está educando seus filhos? Fala que não é machista, mas acha que mulher não pode "dar por aí" e que a sua filha tem que ser "menina para casar" enquanto seu filho é o garanhão da faculdade e ainda chama feminista de feminazi? Ou, se diz não homofóbico, mas não deixa seu filho fazer ballet "porque é coisa de menina ou de boiola?" É contra o Bolsa Família porque é populista e não ensina a pescar, mas dá aquela contribuição mensal a uma instituição de caridade porque é mais fácil do que ir lá ajudar semanalmente? Ou nem isso? É contra a desonestidade, mas cola na prova? E quantas músicas e filmes já baixou esse mês sem pagar pelos direitos autorais?

Eu te pergunto: você que está tão indignado com o petrolão, mensalão, sei lá quantos mais "ãos" o quão indignado se sente com a situação da criança que vem te pedir dinheiro no semáforo com o olhar triste e distante? O quanto te "revolta" quando passa por uma favela ou vê pessoas vivendo em condições de miséria material e emocional, completamente abandonadas pelo Estado? Quantas vezes você bateu panela pelas milhares de crianças que não estudam e sequer podem comer mais do que uma refeição por dia?

Qual o grau de dor física que te causa saber que milhões de brasileiros vivem na extrema miséria (sendo que se você ganha mais de R$ 70 aparentemente já não é mais considerado miserável!).
Você já parou para pensar no tanto de privilégios que você tem? Não me venha com: "não tenho culpa de ser homem/branco/elite". Você pode não ter culpa mas tem RESPONSABILIDADES!

Não é possível continuarmos a viver olhando apenas para o nosso umbigo. Para os nossos argumentos e para o nosso sofrimento! Acabou o iogurte no mercado: fodeu! Viramos a Venezuela. Sério! Para e pensa no ridículo desse problema perto do que milhões e milhões de brasileiros vivem e viveram por séculos. A corrupção não é novidade. Certamente ela não é novidade para quem cresceu sem saneamento básico e asfalto porque a verba nunca chegou. Ela não é nada nova para quem não teve acesso à educação básica e à saúde por séculos e décadas, muito menos para os que vivem sem água no sertão ou para os que morrem todo ano nas enchentes fluminenses. Então, não se engane dizendo que a sua revolta é com o nível absurdo de corrupção! Pois ela está aí corroendo o Brasil há séculos de formas muito mais perversas e nem por isso você gastou seu teflon com isso.

Também não podemos continuar apenas perpetuando discurso de ódio e culpando os outros pelos nossos problemas sem que nos dediquemos minimamente a aprofundar a reflexão e fazer algo para resolvê-los. Chamar o cidadão de coxinha não vai resolver em nada! Culpar o empresário que acorda cedo, paga impostos e que gera empregos também não! Muito menos ajuda defender o governo cegamente com unhas e dentes sem enxergar suas incoerências, sua hipocrisia e demagogia.

Então, vá às ruas no dia 13 ou no dia 15 e demonstre sua posição. Vá em paz e proteste! Mas lembre-se: nem o impeachment nem o status quo resolverão o problema! A única coisa que vai iniciar a mudança verdadeira é o olhar para primeiro para si, depois para o outro com atenção e empatia. É sair da cadeira e da frente do computador e agir. É ler, estudar, empoderar, ocupar o espaço público... cobrar os políticos mas também votar com consciência e (de preferência IR VOTAR). Você pode achar que o maior problema do Brasil é a corrupção, mas não é. O maior problema do Brasil é o individualismo. A corrupção é apenas sintoma de uma causa muito mais podre e pobre!




Em 1964, um golpe de estado que derrubou o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura no Brasil. O regime autoritário militar durou até 1985. Censura, exílio, repressão policial, tortura, mortes e “desaparecimentos” eram expedientes comuns nesses “anos de chumbo”. Porém, apesar de toda documentação e testemunhos que provam os crimes cometidos durante o Estado de exceção, tem gente que acha que naquela época “o Brasil era melhor”. Mas pesquisas da época – algumas divulgados só agora, graças à Comissão Nacional da Verdade – revelam que o período não trouxe tantas vantagens para o país.
Nas últimas semanas, recebemos muitos comentários saudosistas em relação à ditadura na página da SUPER no Facebook. Em uma época em que não é incomum ver gente clamando pela volta do regime e a por uma nova intervenção militar no país, decidimos falar dos mitos sobre a ditadura em que muita gente acredita.

1. “A ditadura no Brasil foi branda”
Pois bem, vamos lá. Há quem diga que a ditadura brasileira teria sido “mais branda” e “menos violenta” que outros regimes latino-americanos. Países como Argentina e Chile, por exemplo, teriam sofrido muito mais em “mãos militares”. De fato, a ditadura nesses países também foi sanguinária. Mas repare bem: também foi. Afinal, direitos fundamentais do ser humano eram constantemente violados por aqui: torturas e assassinatos de presos políticos – e até mesmo de crianças – eram comuns nos “porões do regime”. Esses crimes contra a humanidade, hoje, já são admitidos até mesmo pelos militares (veja aqui e aqui). Para quem, mesmo assim, acha que foi “suave” a repressão, um estudo do governo federal analisou relatórios e propõe triplicar a lista oficial de mortos e desaparecidos políticos vítimas da ditadura militar. Ou seja: de 357 mortos e desaparecidos com relação direta ou indireta com a repressão da ditadura (segundo a lista da Secretaria de Direitos Humanos), o número pode saltar para 957 mortos.

2. “Tínhamos educação de qualidade”
Naquele época, o “livre-pensar” não era, digamos, uma prioridade para o regime. Havia um intenso controle sobre informações e ideologia – o que engessava o currículo – e as disciplinas de filosofia e sociologia foram substituídas por Educação, Moral e Cívica e por OSPB (Organização Social e Política Brasileira, uma matéria obrigatória em todas as escolas do país, destinada à transmissão da ideologia do regime autoritário). Segundo o estudo “Mapa do Analfabetismo no Brasil”, do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do Ministério da Educação, o Mobral (Movimento Brasileiro para Alfabetização) fracassou. O Mobral era uma resposta do regime militar ao método do educador Paulo Freire – considerado subversivo -, empregado, já naquela época, com sucesso no mundo todo. Mas os problemas não paravam por aí: com o baixo índice de investimento na escola pública, as unidades privadas prosperaram. E faturaram também. Esse “sucateamento” também chegou às universidades: foram afastadas dos centros urbanos – para evitar “baderna” – e sofreram a imposição do criticado sistema de crédito.

3. “A saúde não era o caos de hoje”
Se hoje todo mundo reclama da “qualidade do atendimento” e das “filas intermináveis” nos hospitais e postos de saúde, imagina naquela época. Para começar, o acesso à saúde era restrito: o Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável pelo atendimento público, mas era exclusivo aos trabalhadores formais. Ou seja, só era atendido quem tinha carteira de trabalho assinada. O resultado era esperado: cresceu a prestação de serviço pago, com hospitais e clínicas privadas. Essas instituições abrangeram, em 1976, a quase 98% das internações. Planos de saúde ainda não existiam e o saneamento básico chegava a poucas localidades, o que aumentava o número de doenças. Além disso, o modelo hospitalar adotado relegava a assistência primária a segundo plano, ou seja, para os militares era melhor remediar que prevenir. O tão criticado SUS (Sistema Único de Saúde) – que hoje atende cerca de 80% da população – só foi criado em 1988, três anos após o fim da ditadura.

4. “Não havia corrupção no Brasil”
Uma características básica da democracia é a participação da sociedade civil organizada no controle dos gastos, denunciando a corrupção. E em um regime de exceção, bem, as coisas não funcionavam exatamente assim. Não havia conselhos fiscalizatórios e, depois da dissolução do Congresso Nacional, as contas públicas não eram sequer analisadas, quanto mais discutidas. Além disso, os militares investiam bilhões e bilhões em obras faraônicas – como Itaipu, Transamazônica e Ferrovia do Aço -, sem nenhum controle de gastos. Esse clima tenso de “gastos estratosféricos” até levou o ministro Armando Falcão, pilar da ditadura, a declarar que “o problema mais grave no Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”. Muito pouco se falava em corrupção. Mas não significa que ela não estava lá. Experimente jogar no Google termos como “Caso Halles”, “Caso BUC” e “Caso UEB/Rio-Sul” e você nunca mais vai usar esse argumento.

5. “Os militares evitaram a ditadura comunista”
É fato: o governo do presidente João Goulart era constitucional. Seguia todo à risca o protocolo. Ele chegou ao poder depois da renúncia de Jânio Quadros, de quem era vice. Em 1955, foi eleito vice-presidente com 500 mil votos a mais que Juscelino Kubitschek. Porém, quando Jango assumiu a Presidência, a imprensa bateu na tecla de que em seu governo havia um “caos administrativo” e que havia a necessidade de reestabelecer a “ordem e o progresso” através de uma intervenção militar. Foi criada, então, a ideia da iminência de um “golpe comunista” e de um alinhamento à URSS, o que virou motivo para a intervenção. Goulart não era o que se poderia chamar de marxista. Antes de ser presidente, ele fora ministro de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek e estava mais próximo do populismo. Em entrevista inédita recentemente divulgada, o presidente deposto afirmou que havia uma confusão entre “justiça social” – o que ele pretendia com as Reformas de Base – e comunismo, ideia que ele não compartilhava: “justiça social não é algo marxista ou comunista”, disse. Há também outro fator: pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe, em 31 de março, mostram que Jango tinha um amplo apoio popular, chegando a 70% de aprovação na cidade de São Paulo. Esta pesquisa, claro, não foi revelada à época, mas foi catalogada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

6. “O Brasil cresceu economicamente”
Um grande legado econômico do regime militar é indiscutível: o aumento da dívida externa, que permaneceu impagável por toda a primeira década de redemocratização. Em 1984, o Brasil devia a governos e bancos estrangeiros o equivalente a 53,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB). Sim, mais da metade do que arrecadava. Se transpuséssemos essa dívida para os dias de hoje, seria como se o Brasil devesse US$ 1,2 trilhão, ou seja, o quádruplo da atual dívida externa. Além disso, o suposto “milagre econômico brasileiro” – quando o Brasil cresceu acima de 10% ao ano – mostrou que o bolo crescia sim, mas poucos podiam comê-lo. A distribuição de renda se polarizou: os 10% dos mais ricos que tinham 38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. Já os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, decaíram para 12% duas décadas depois. Quer dizer, quem era rico ficou ainda mais rico e o pobre, mais pobre que antes. Outra coisa que piorava ainda mais a situação do população de baixa renda: em pleno milagre, o salário mínimo representava a metade do poder de compra que tinha em 1960.

7. “As igrejas apoiaram”
Sim, as igrejas tiveram um papel destacado no apoio ao golpe. Porém, em todo o Brasil, houve religiosos que criaram grupos de resistência, deixaram de aceitar imposições do governo, denunciaram torturas, foram torturados e mortos e até ajudaram a retirar pessoas perseguidas pela ditadura no país. Inclusive, ainda durante o regime militar, uma das maiores ações em defesa dos direitos humanos – o relatório “Brasil: Nunca Mais” – originou-se de uma ação ecumênica, desenvolvida por dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright. Realizado clandestinamente entre 1979 e 1985, gerou uma importante documentação sobre nossa história, revelando a extensão da repressão política no Brasil.

8. “Durante a ditadura, só morreram vagabundos e terroristas”
Esse é um argumento bem fácil de encontrar em caixas de comentário da internet. Dizem que quem não pegou em armas nunca foi preso, torturado ou morto pelas mãos de militares. Provavelmente, quem acredita nisso não coloca na conta o genocídio de povos indígenas na Amazônia durante a construção da Transamazônica. Segundo a estimativa apresentada na Comissão da Verdade, 8 mil índios morreram entre 1971 e 1985. Isso sem contar as outras vítimas da ditadura que não faziam parte da guerrilha. É o caso de Rubens Paiva. O ex-deputado, cassado depois do golpe, em 1964, foi torturado porque os militares suspeitavam que, através dele, conseguiriam chegar a Carlos Lamarca, um dos líderes da oposição armada. Não deu certo: Rubens Paiva morreu durante a tortura. A verdade sobre a morte do político só veio à tona em 2014. Antes disso, uma outra versão (bem mal contada) dizia que ele tinha “desaparecido”. Para entrar na mira dos militares durante a ditadura, lutar pela democracia – mesmo sem armas na mão – já era motivo o suficiente.

9. “Todos os militares apoiaram o regime”
Ser militar na época não era sinônimo de golpista, claro. Havia uma corrente de militares que apoiava Goulart e via nas reformas de base um importante caminho para o Brasil. Houve focos de resistência em São Paulo, no Rio de Janeiro e também no Rio Grande do Sul, apesar do contragolpe nunca ter acontecido. Durante o regime, muitos militares sofreram e estima-se que cerca 7,5 mil membros das Forças Armadas e bombeiros foram perseguidos, presos, torturados ou expulsos das corporações por se oporem à ditadura. No auge do endurecimento do regime, os serviços secretos buscavam informações sobre focos da resistência militar, assim como a influência do comunismo nos sindicatos, no Exército, na Força Pública e na Guarda Civil.

10. “Naquele tempo, havia civismo e não tinha tanta baderna como greves e passeatas”
Quando os militares assumiram o poder, uma das primeiras medidas que tomaram foi assumir a possibilidade de suspensão dos diretos políticos de qualquer cidadão. Com isso, as representações sindicais foram duramente afetadas e passaram a ser controladas com pulso forte pelo Ministério do Trabalho, o que gerou o enfraquecimento dos sindicatos, especialmente na primeira metade do período de repressão. Afinal, para que as leis trabalhistas vigorem, é necessário que se judicializem e que os patrões as respeitem. Com essa supressão, os sindicatos passaram a ser compostos mais por agentes do governo que trabalhadores. E os direitos dos trabalhadores foram reduzidos à vontade dos patrões. Passeatas eram duramente repreendidas. Quando o estudante Edson Luísa de Lima Souto foi morto em uma ação policial no Rio de Janeiro, multidões foram às ruas no que ficou conhecido com o a Passeata dos Cem Mil. Nos meses seguintes, a repressão ao movimento estudantil só aumentou. As ações militares contra manifestações do tipo culminaram no AI-5. O que aconteceu daí para a frente você já sabe.
Mas, se você já esqueceu ou ainda não está convencido, confira uma linha do tempo da ditadura militar nesse especial que a SUPER preparou sobre o período. Não deixe de jogar “De volta a 1964″, o jogo que mostra qual teria sido sua trajetória durante as duas décadas do regime militar no Brasil.


O impeachment da presidente Dilma Rousseff não é a prioridade dos que pretendem ir às ruas no próximo domingo nos protestos contra o governo. Segundo pesquisa do instituto Ipsos, feita entre os dias 9 e 11 de março em São Paulo, Porto Alegre e Recife, o que mais motiva os manifestantes é o pedido pelo fim da corrupção, seguido por melhorias na saúde pública.

O impedimento da presidente é apenas 14º mais votado, entre 18 motivos apresentados aos entrevistados. "As pessoas não declaram que estão indo pelo impeachment. Há outros motivos como corrupção e inflação", conta o diretor do Ipsos Dorival Mata-Machado.

Outros motivos citados pelos entrevistados são, na ordem, falta de segurança, aumento das passagens, inflação, melhorias na educação, aumento do desemprego, crise de água e descrença na política em geral. "A corrupção, se pegar o histórico, sempre foi uma preocupação muito mais visível das classes A e B. Agora são todas as classes sociais", diz o pesquisador.

Entre os ouvidos, 24% consideram a possibilidade de ir às ruas no domingo. As manifestações são aprovadas por 65% dos entrevistados. "O discurso da presidente em rede nacional, e tudo que se gerou no discurso, teve um impacto muito grande. Os argumentos não foram aceitos e a forma como isso repercutiu, ou foi repercutida, aumentou a discussão sobre os protestos", analisa Mata-Machado.

No discurso do último domingo, em homenagem ao Dia da Mulher, a presidente Dilma explicou o ajuste fiscal promovido pela equipe econômica liderada por Joaquim Levy, mas, segundo a pesquisa Ipsos, não conseguiu convencer. Somente 18 % dos entrevistados acreditam que a inflação é um fenômeno temporário e 84% não acreditam que o governo esteja fazendo ajustes necessários.

Além disso, a alegação de que a crise atual se deve à crise internacional não é aceita por 73% dos entrevistados. "A população está ficando mais crítica sobre as explicações que estão sendo dadas a ela", diz Mata-Machado. A pesquisa sobre as manifestações ouviu 800 pessoas entre os dias 9 e 11 de março em Porto Alegre, São Paulo e Recife.

Pulso
Outra pesquisa do instituto mediu a popularidade da presidente Dilma e a reprovação chegou ao nível mais baixo desde a posse. Segundo os números, 19% dizem que o governo é bom ou ótimo, regular positivo para 16% e regular negativo 15%. Os que acham o governo ruim ou péssimo são, respectivamente, 17% e 33%.
Na região Nordeste, onde a presidente tem os melhores índices, a avaliação negativa ultrapassou a positiva. A pesquisa de popularidade, chamada Pulso Brasil, foi feita 1200 pessoas nas cinco regiões do País.






A direção de jornalismo da Globo já convocou  jornalistas para fazer cobertura ao vivo dos atos desde o domingo cedo. E já teria informado  que vai usar o  Globo Notícia para criar um clima mais quente da cobertura.
O Globo Notícia, para quem não sabe exatamente do que se trata, é aquele expediente que a emissora que apoiou o golpe de 64 utiliza em momentos raros. No meio da programação surge aquela musiquinha em clima de emergência e algum âncora de plantão narra a notícia grave.
Foi assim, por exemplo, na morte de Tancredo, que aconteceu num domingo, em meio a um Fantástico.
A Globo não faz isso em eventos.
Mas já fez algo bastante semelhante em 20 de junho de 2013, quando exibiu flashes dos protestos desde às 15h45.
Naquele dia, a Globo deixou de transmitir a Copa das Confederações, porque a a Fifa não permitia interrupções nas transmissões dos jogos.
Surpreendendo a muitas pessoas (não a este blogueiro), a Globo ainda decidiu priorizar a transmissão dos protestos e não transmitiu as novelas Flor do Caribe e Sangue Bom.
Os âncoras e repórteres ficavam defendendo os protestos e anunciando a chegada de milhares de pessoas à Paulista. A Globo News chegou a colocar três protestos simultaneamente na tela.
Às 19h30, o Homer, digo o Bonner, substituiu Patrícia Poeta na narração do ato e anunciou o início do Jornal Nacional uma hora mais tarde (no horário de costume) sem escalada de manchetes.
A Globo e seus repórteres focaram a cobertura do ato destacando a rejeição a PEC 37. Como se todos que estivessem na Paulista naquele dia tivessem ido com aquele objetivo.
Ao convocar seus repórteres para fazer essa cobertura no domingo a Globo vai buscar levar mais gente aos atos. É claramente essa a estratégia. E, claro, vai chamar o ato buscando destacar o movimento pró-impeachment de Dilma.
Se o governo não fizer nada contra isso, estará aceitando que a Globo lidere uma tentativa de golpe midiático.
Em abril de 2001, Gustavo Cisneros fez exatamente isso na Venezuela. E além da cobertura-convocatória ao vivo das manifestações, surgiram cadáveres atingidos por franco-atiradores.
Esse blogueiro tem ojeriza a alarmismo, mas os responsáveis pelo jornalismo da Globo sabem exatamente onde a entrada de uma concessão pública com a força de audiência da emissora pode fazer as coisas chegarem.
E se faltava algum ingrediente para as manifestações de domingo ligarem o alerta máximo. Essa provocação da Globo é a gota d´água.



Se você é daqueles que acredita que haverá uma revolução, e que esta será liderada pela tecnologia, reconsidere.  Tal ideia é totalmente contraditória.
Não haverá revolução e a tecnologia não levará a nenhuma revolução.
Por quê?
A essência de uma revolução é a centralização do poderEngels já sabia disso desde cedo, e fez questão de nos lembrar disso ao longo de vários anos. Não há nada mais centralizador do que uma revolução.
Todas as revoluções ocorridas na história geraram uma centralização do poder, inclusive a Revolução Americana.
Não estamos na iminência de uma revolução.  Estamos, isso sim, à beira de uma não-revolução.
O que estamos vendo ao redor do mundo é uma descentralização.  Estamos testemunhando a fragmentação do equivalente ao Império Romano.  Não houve nenhuma revolução contra o Império Romano.  Ele simplesmente se desintegrou.  O mundo medieval foi um período de enorme descentralização.

Ao longo do século XVII, houve várias tentativas de iniciar revoluções. A Revolução Puritana na Inglaterra foi uma delas. Foi uma revolta contra o poder centralizado do rei, mas foi uma revolta feita em nome da centralização do poder no Parlamento.  Ela simplesmente gerou um ditador militar, Oliver Cromwell, de 1649 a 1659.
Cromwell foi substituído por um novo rei em 1660, mas o parlamento continuou a centralizar o seu poder.  A Revolução Gloriosa de 1688 e 1689 retirou muito do poder do rei, mas não reduziu o poder do governo; ela simplesmente transferiu o poder para o Parlamento.

O Parlamento então adotou uma peculiar teoria sobre 'soberania parlamentar' algo até então sem precedentes na história da tirania.  Ele reivindicou, e ainda reivindica, soberania suprema sobre todos os aspectos da vida britânica.  Não foi elaborada nenhuma constituição para conter o Parlamento britânico. Havia apenas o direito consuetudinário para contê-lo, o que já era de alguma importância.  Mas o fato é que a centralização continuou. E continua até hoje.

Com uma intensa descentralização surge não uma revolução, mas sim uma secessão. E não me refiro a uma secessão ao estilo daquela que ocorreu no sul dos EUA, que era apenas uma maneira de centralizar o poder no sul do país.  Aquilo não passou de um grupo de revolucionários armados que procuravam centralizar o poder na região que queriam controlar.  Como eles próprios argumentavam, era uma repetição da Revolução Americana.

Revoluções significam centralização do poder.  Quem não entender isso não irá entender o que está ocorrendo hoje com o mundo, e o que vem ocorrendo ao longo dos últimos 500 anos.  Revoluções centralizam o poder.  Se o objetivo é combater militarmente um poder centralizado, então os combatentes têm de centralizar o poder em torno de si próprios.  Ao fazer isso, tudo o que é alcançado é simplesmente uma mudança de lealdade, a qual irá para esse novo grupo de centralizadores formados. Até hoje as pessoas ainda não aprenderam isso.

Os cercamentos privados que ocorreram na Inglaterra foram cruciais para o estabelecimento da liberdade inglesa. Todo o processo representava uma guerra contra o governo federal.  Era uma guerra contra o poder centralizado.  Era uma guerra contra burocratas que davam ordens ao povo sobre o que deveria ser feito com a propriedade.

Para fugir do sistema, você não tem de fazer uma revolução; você tem de fazer uma secessão.  Você tem de retirar todo o seu apoio ao sistema vigente.  Você tem de revogar a legitimidade que você conferiu a essas organizações. Você tem de fazer isso, e todas as outras pessoas também têm de fazer isso.  E isso não é uma coisa que pode ser organizada antecipadamente. As pessoas simplesmente aprendem, escândalo após escândalo, absurdo burocrático após absurdo burocrático, que o sistema é irreparável. Ele não pode ser reformado.  Ele não pode ser "capturado desde dentro".  Ele tem de deixar de ser financiado. O segredo da liberdade não é a revolução; o segredo da liberdade é a deixar de financiar a ordem centralizada existente.

O segredo da estabilidade monetária e de uma moeda forte não é capturar o Banco Central e colocar lá "um dos nossos", ou conceder a ela uma suposta independência.   O segredo é a soberania monetária.  Qualquer um utiliza a moeda que quiser sob uma ordem social de livre mercado.  E isso só se consegue via secessão.

O segredo de uma melhor educação não é capturar e controlar o sistema público de ensino. O segredo de uma educação melhor é utilizar a internet (o que reduz sobremaneira os custos da educação), descentralizar todo o processo, e colocar os pais no controle do programa educacional de suas famílias.
O problema é que os conservadores e vários libertários são de lento aprendizado. Eles ainda insistem em dizer que o melhor a ser feito é capturar e controlar o sistema progressista, pois acreditam que têm um plano melhor para fazê-lo funcionar. Isso foi o que os bolcheviques fizeram com a burocracia do Czar. Isso foi o que os revolucionários franceses fizeram com a burocracia de Luís XVI. Isso foi o que os revolucionários americanos fizeram com a burocracia de George III. Isso é o que o sul dos EUA teria feito caso tivesse vencido.

A revolução tecnológica, a revolução "open source", vai descentralizar o mundo de maneira mais intensa.  A descentralização não vai levar a uma revolução.  A descentralização vai levar à secessão.  Refiro-me a uma secessão ao estilo de Gandhi. Refiro-me à retirada do apoio. Você não tem de pegar em armas contra o estado; você simplesmente tem de se recusar a cooperar com ele.  Agindo assim, você faz com que seja mais difícil e mais custoso para o estado tentar tiranizar você

A Iugoslávia não existe mais. A União Soviética não existe mais. Essa é a onda do futuro.  Os estatistas e os pretensos estatistas irão continuar em busca da Grande Revolução.  Assim como Marx, eles veem como iminente a Grande Revolução.  Só que ela nunca veio.  A revolução comunista ocorreu justamente onde, segundo a própria teoria marxista, não deveria ter ocorrido: a área rural do império russo. O proletariado urbano não fez a revolução; quem a fez foi um bando de intelectuais alienados em conjunto com assaltantes de banco.

O que iremos testemunhar é o fim do apoio aos regimes centrais.  As revoluções no mundo árabe não descentralizam nada.  Elas apenas reorganizaram a centralização nas mãos de um outro grupo de tiranos.  É bom ver os antigos tiranos sendo humilhados e derrubados, pelo menos de longe. Mas isso não muda nada. O Egito é exatamente o mesmo que era sob o jugo de Mubarak.  É uma ditadura militar. A revolução não trouxe nada de positivo.

Revolucionários têm de ter um objetivo centralizador.  Pode ser explícito ou não, mas sempre há uma agenda centralizadora em todos os movimentos revolucionários.   Todo revolucionário sempre acredita que sua revolução será a última.  Todo revolucionário acredita que, quando ele finalmente estiver no controle da cadeia hierárquica de comando, as coisas serão diferentes.  Sim, será diferente: teremos um grupo diferente de espoliadores pilhando a produtividade das vítimas.

Enquanto conservadores e alguns libertários continuarem sonhando com a captura e o controle de sistemas hierárquicos de poder, nada vai mudar.
Nenhum plano centralizador pode surgir de um sistema de comunicação descentralizado.  Vivemos nos Bálcãs digitais, e não na Iugoslávia.

O Facebook está descentralizando o mundo.  Ele está "balcanizando" o mundo. E isso vai continuar.




A Nova República acabou, diz filósofo Vladimir Safatle
Centenas de milhares de pessoas são esperadas em protestos contra a corrupção e o governo Dilma por todo o país neste domingo. Dois dias antes, milhares de manifestantes foram às ruas de várias cidades defender o governo democraticamente eleito. Entre defensores da situação e da oposição há uma disputa pelo poder, e o país parece enfrentar um teste de estresse político inédito, como avaliou o cientista político André Singer. Para o filósofo Vladimir Safatle, entretanto, o momento é muito pior de que as pessoas querem admitir, mas não estamos passando por uma simples disputa entre PT e PSDB, pois o problema é mais amplo e atinge todo o sistema político nacional. "Nesse momento da história, é necessário ter claro o fato de que a Nova República acabou, morreu", disse, em entrevista ao UOL Notícias.
Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo) e colunista da "Folha de S.Paulo". Segundo ele, nem mesmo durante a ditadura houve uma depressão sociocultural como a atual, e as manifestações populares são um sinal do esgotamento nunca antes visto do modelo político - um problema que vai além da corrupção e a crise de representatividade. "Trocar o PT por outro partido não muda nada. É como trazer Dunga de volta à seleção brasileira após a derrota na Copa. Continuamos aprisionados ao processo", disse. "Se é verdade que os partidos políticos fazem parte dos protestos, é piada achar que as passeatas podem fazer diferença."
Safatle acredita que o governo Dilma já naufragou. Segundo ele, entretanto, a solução passa não por impeachment, mas por uma reforma ampla do modelo democrático que aumente a participação da sociedade nas decisões políticas. "O país está em ebulição, procurando novas formas desesperadamente", disse.
Leia abaixo a entrevista completa.
UOL - Há setores da sociedade falando em impeachment atualmente, e há quem acuse esses setores de serem golpistas. O que o senhor acha das atuais manifestações?
Vladimir Safatle - O estranho das manifestações atuais é saber o que elas querem. Vão afastar o governo para quê? Não se fala em estabelecimento de uma nova ideia de política no país. Se é verdade que os partidos políticos fazem parte dos protestos, é piada achar que as passeatas podem fazer diferença.
Mesmo assim, essa manifestação é só a primeira. O país não vai ficar quatro anos paralisado. O governo Dilma cometeu dois erros mortais. Primeiro ele desmobilizou o próprio campo numa situação de tensão, e mesmo as pessoas que circulavam em torno do núcleo ideológico do governo foram desmobilizadas quando ela mudou o encaminhamento econômico e parou de governar. Segundo, ela transformou o medo no aspecto político central da sua campanha. O governo já naufragou. A questão é saber se a esquerda vai naufragar junto com ele.
UOL - Vivemos atualmente uma instabilidade política em meio a comemorações de 30 anos da redemocratização. A democracia brasileira está consolidada? Pode-se dizer que o Brasil é uma democracia de fato?
Safatle - O Brasil é uma neodemocracia. Precisamos de mais conceitos para compreender situações como a brasileira. Não há só dois conceitos em oposição, não é uma questão apenas de democracia ou regime autoritário. A situação do Brasil é um tipo de experiência política em que se tem uma série de garantias democráticas, mas também se tem uma permeabilidade a forças de fora do espectro político que interferem de maneira tal na aplicação da lei e que fazem com que não possamos falar em democracia no sentido completo do termo. Apesar disso, é falso chamar de "democracia incompleta". O certo é dizer que é uma neodemocracia que gira em torno dos seus impasses há 30 anos. Do final dos anos 1980 até hoje a democracia não se aperfeiçoou, e os seus problemas ficaram mais evidentes, como a baixa participação popular, um sistema parlamentar que produz distorções no sistema representativo e perpetuação de castas que interferem no sistema, interferências econômicas inacreditavelmente altas nos processos eleitorais. Nesse momento da história, é necessário ter claro o fato de que a Nova República acabou, morreu.
UOL - O que isso quer dizer? Quais são os impactos disso para o sistema democrático e para o país?
Safatle - A Nova República foi, entre outras coisas, um modelo de construção pós-ditadura na qual a governabilidade era compreendida através da cooptação de uma parte da classe política que se desenvolveu na própria ditadura, e da gestão de toda essa massa fisiológica da política brasileira vinculada a interesses locais. Foi assim no governo de Fernando Henrique Cardoso, com apoio de Antonio Carlos Magalhães e do PFL, e foi assim no governo Lula, com Sarney. Nos dois casos, o PMDB era o grande gestor da fisiologia política.
Esse modelo se esgotou completamente. A produção de grandes atores políticos, do PT e do PSDB, se desmontou. Esses dois núcleos se esgotaram por completo. Ninguém mais espera que o processo de modernização nacional possa ser feito a partir de propostas desses dois grupos. Os dois já foram testados e demonstraram limites muito evidentes. Ninguém vai conseguir fazer nada continuando este modelo.
O trágico é que quando uma coisa termina, ela não acaba necessariamente logo, e pode continuar como zumbi, como morto-vivo, e o país fica paralisado por muito tempo. Nada está acontecendo, apesar de todos os embates atuais. O fim do modelo é trágico, e leva consigo os atores políticos, intelectuais e formadores de opinião.
UOL -  E como fica a democracia nesse processo de esgotamento do modelo?
Safatle - As experiências de democracia liberal, este modelo esgotado, negligenciaram a inteligência prática das pessoas que são afetadas pelas decisões políticas. Existe o problema de pensar que só há política sob o império da representação. Isso é um absurdo e limita a capacidade de pensamento. A filosofia já abandonou essa questão da representação como elemento decisivo. A ideia de representação é equivocada, e as pessoas têm medo de discutir formas alternativas pensando que isso é um convite ao autoritarismo. Não é. Podemos abandonar a ideia de representação sem implicar em unidade totalitária. O problema da representação é que quando ela se organiza, ela diz quais são as condições para a pessoa ser representável. Quem organiza o espaço de representação define quem ocupa o poder. Criam-se limitações para a participação política e excluem-se uma quantidade enorme de pessoas.
O Brasil vive um processo em que cada vez menos pessoas votam. Isso se repete em muitos outros países, e não é uma questão de confiança no sistema político, mas de descontentamento mesmo em democracias ditas consolidadas, como Inglaterra, Alemanha, França e Itália. Mesmo esses países vivem uma degradação de modelo de democracia representativa.
UOL - Qual a alternativa ao sistema de representação, então?
Safatle - Dentro do contexto atual, é importante ter mais ousadia de pensamento. Acredito na fragmentação da democracia direta, e isso não é discutido mais nem em universidades. Temos condições técnicas para implementar uma democracia digital, se utilizando da facilidade tecnológica para ter alta participação popular. Não precisamos criar um sistema de representação por impossibilidade de participação. Isso acabou. Podemos, sim, passar gradativamente atribuições de todos os poderes para a participação popular, com capacidade de deliberação. E os poderes se transformam em poderes de implementação de decisões que não são tomadas por eles, mas pela participação popular. Claro que ninguém é ingênuo de achar que isso é implementado de repente e por mera vontade política. O que é imperdoável é não se tente, não se teste isso, nem que seja em pequena escala. Isso permitira que toda a população tivesse consciência das possibilidades de outras formas de poder e organização do Estado, e sua relação com a sociedade civil, organizada ou não. O país está em ebulição, procurando novas formas desesperadamente. O país tem consciência de que chegou ao esgotamento e que não quer continuar nesse modelo esgotado.
UOL - O senhor mencionou problemas em democracias da Europa, que costumam ser vistas como modelos mais consolidados. Existe um modelo ideal a ser seguido para fortalecer a democracia?
Safatle - Ninguém nunca esperou a democracia perfeita. A democracia está em processo constante de construção e desconstrução. Uma democracia forte não tem medo de desconstruir suas instituições. O fundamental é a presença contínua do poder constituinte.
Várias democracias consolidadas tiveram mudanças institucionais drásticas, como a França no final dos anos 1960, refundando a república. Precisamos de uma república nova no Brasil hoje. Não precisamos defender as instituições, mas desconstruir as instituições que funcionam mal. Eu não vou defender o Congresso, pois suas estruturas estão equivocadas. Precisamos de uma discussão profunda sobre o modelo de instituições que queremos. O problema é que a discussão acontece com pessoas que se aproveitam do sistema atual.
UOL -  Mesmo com toda a instabilidade, há quem diga que este é o momento mais democrático pelo qual o Brasil já passou, olhando sob a perspectiva histórica. O que o senhor acha?
Safatle - De fato, do ponto de vista do funcionamento democrático, pode parecer que já passamos por situações piores. Claro que não podemos comparar o momento atual com a ditadura, que é a antipolítica por excelência.
Dentro da experiência democrática brasileira, comparando com o período entre 1945 e 1964, entretanto, esta é a primeira vez que a população brasileira olha para o futuro e não vê algo possivelmente diferente do que ela viu até agora. Entre 45 e 64 havia um processo em massa, apesar dos conflitos brutais e tentativas de golpe. Havia a expectativa de uma tomada democrática do poder, de uma implementação de reformas. Havia um projeto que pensava no futuro. De 1985 para cá, houve algo parecido, em dois projetos de modernização nacional. O problema é que esses dois projetos acabaram. Pela primeira vez na política brasileira temos mais de que uma crise de representação, mas o vazio de atores políticos. Ninguém consegue mobilizar a população brasileira. Nesse contexto, a situação atual brasileira é de fato a pior possível.
Esse tipo de situação, em que países dão menos de que podem dar, cria uma depressão política, econômica e social, e os países ficam menores de que eles são. Não tem nada pior. Nem mesmo durante a ditadura havia uma depressão sociocultural como temos hoje, pois existia uma força de contraposição, que aumentava gradativamente.
UOL - O que poderia ser mudado? Como melhorar o sistema que está em crise?
Safatle - A primeira coisa que é preciso fazer é admitir que estamos nessa situação. Acabou. É preciso que todo mundo fale isso em voz alta para podermos produzir uma nova situação.
Trocar o PT por outro partido não muda nada. É como trazer Dunga de volta à seleção brasileira após a derrota na Copa. Continuamos aprisionados ao processo. Precisamos de uma consciência clara de que esse é um modelo singular, de esgotamento nunca antes visto. Enquanto não percebermos que acabou, nada vai acontecer.
Vivemos agora a lógica dos pequenos problemas, da corrupção, do estado inchado, quando na verdade o problema é muito maior. Todos os escândalos de corrupção dos últimos 13 anos envolveram todos os partidos relevantes do Brasil. Isso significa que trocar de partidos no interior do modelo de governabilidade é continuar uma piada. O modelo de governabilidade é o grande problema
UOL - O que o senhor acha do debate a respeito de uma possível reforma política?
Safatle - Todo mundo sabe que não haverá reforma política. A reforma política que se propõe é pior de que a situação atual. O Brasil hoje é uma partidocracia. Os partidos vão tentar instituir o monopólio da representação política brasileira. Não é crível esperar que uma reforma política seja feita dessa maneira. Existe uma baixa densidade de participação popular em processos decisórios de estado. A população só é convocada para eleições a cada quatro anos. A população não tem poder de deliberação.
O que tem que ser posto é de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. Isso tem que ocorrer fora do parlamento e do processo de escolha determinado pelo parlamento. A Europa pensou sobre isso depois de 2008, e o caso da Islândia é paradigmático. Eles fizeram uma Constituição fora do Parlamento. É preciso fazer um processo em que não são os políticos que são eleitos. Em crise de representação vai-se ao grau zero de representação, aproximando o máximo possível da presença popular, reconstruindo a estrutura institucional a partir disso. A Assembleia tem que ter pessoas simples participando, professores, enfermeiros, pessoas comuns, e não só políticos.
Precisamos de criatividade política. Os países que conseguem mobilizar a população são os que saem da crise. Ter medo, pensar em riscos para a democracia, vai nos deixar num processo infinito de degradação.




Sobre a Venezuela, que muita gente nem sabe onde fica, mas virou a bola da vez, filme básico:
"A revolução não será televisionada"










Ambulantes aproveitam manifestação para vender sobras da Copa do Mundo


No Rio de Janeiro, bandeiras do Brasil que estavam empacadas desde que a Seleção perdeu para Alemanha foram vendidas, neste domingo (15), por R$ 10. Cangas saíam por até R$ 30. 

 Os ambulantes aproveitaram a manifestação que aconteceu no Rio de Janeiro, neste domingo (15), para vender sobras da Copa do Mundo 2014. Bandeiras do Brasil, buzinas e outros artigos verde e amarelos foram sensação em ato contra o governo de Dilma Rousseff, que reuniu 20 mil pessoas em Copacabana. "Ninguém esperava todo esse movimento não", falou o alagoano Francisco José, 25. "A gente não esperava vender bandeira desde que o Brasil perdeu a Copa. Tinha bandeira empacada, hoje vendi tudo", comemorou o vendedor, cujas flâmulas saíram por R$ 10 cada uma. Quando falou com a reportagem, ele só tinha cangas com as cores do Brasil, que custavam R$ 25 (lisa) ou R$ 30 (com fundo estampado). Fábio Casemiro chegou tarde, por volta das 11h, e, por isso, acabou não vendendo tanto. "O governo só aumenta tudo, né? Ninguém tá rico e nem nada. Eu sou a favor da saída da Dilma, o problema é que se entrar outro vai roubar do mesmo jeito", comentou sobre a manifestação. 






Fotos: Imagens constrangedoras das manifestações de domingo e território livre da internet




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