segunda-feira, 4 de maio de 2015

Porque a alteração da rotulagem transgênica fere o direito à informação, a Lei de Biossegurança e só interessa ao agronegócio, veja a opinião do IDEC, OAB, Greenpeace e pelo menos uma dezena de juristas publicados

Greenpeace: Câmara aprova fim do símbolo de transgênicos nos rótulos

Rotulagem deixa de ser obrigatória mesmo para produtos alimentares à base de matéria-prima 100% transgênica; Congresso Nacional priva o consumidor de seu direito básico
A Câmara dos Deputados aprovou ontem o Projeto de Lei (PL) 4148/08, de autoria do Dep. Luis Carlos Heinze (PP-RS), que altera a legislação de rotulagem para transgênicos, existente desde 2003. Com a nova lei, apenas produtos que apresentem mais de 1% de transgênicos em sua composição final precisam ser rotulados e o símbolo do “T” preto em triângulo amarelo deixa de ser obrigatório.



Na prática, isso significa que a maior parte dos produtos que hoje são rotulados, garantindo aos consumidores brasileiros o direito à informação e escolha, não precisam mais exibir essa informação no rótulo, mesmo que tenham sido fabricados com matéria-prima 100% transgênica.






“O óleo de soja, por exemplo, amplamente usado pela população brasileira, não tem como ser testado para presença de transgênicos porque seu processo de fabricação destrói o DNA. Ou seja, você pode usar só grãos transgênicos na fabricação e ainda assim o teste não irá detectar”, explica Gabriela Vuolo, coordenadora da campanha de Alimentação e Agricultura do Greenpeace. O mesmo vale para margarinas, produtos contendo lecitina de soja (como chocolates e outros produtos industrializados), fubá, amido de milho e cervejas que contenham milho em sua composição - todos esses produtos têm o DNA destruído durante seu processamento sendo impossível, portanto, detectar a transgenia na composição final do produto.
A proposta aprovada ontem também extingue a exigência de rotulagem para produtos de origem animal e rações, e abre uma brecha para que produtos que não apresentem DNA transgênico em sua composição final sejam rotulados como “livres de transgênicos” - mesmo que tenham sido fabricados com matéria-prima 100% transgênica. Basta, para isso, que o teste realizado no produto final não apresente o DNA transgênico.
Retrocesso... e mais retrocesso
“Nesta semana tivemos a aprovação do Projeto de Lei da Biodiversidade, o PL 7735/14, que privilegia interesses privados em detrimento de comunidades tradicionais e pequenos produtores rurais. E agora este Projeto de Lei que aniquila o direito dos brasileiros de saber o que estão comendo”, atesta Vuolo. Ela lembra que também existem propostas para flexibilizar a legislação sobre terras indígenastrabalho escravo e agrotóxicos
A relação íntima entre a bancada ruralista e grandes empresas do agronegócio não é de hoje. Em 2010, um parecer do Dep. Candido Vacarezza foi denunciado por ter sido redidigo por uma advogada ligada à Monsanto. O parecer em questão era justamente a respeito do PL 4148, do Dep. Luis Carlos Heinze, aprovado ontem. Atualmente, tanto o Dep. Heinze quanto o Dep. Vacarezza estão sendo investigados pela Operação Lava-Jato.
“Afinal, a quem serve o Congresso? Por que os interesses de grandes empresas são sempre colocados acima dos interesses da população?”, questiona Gabriela Vuolo. O PL 4148 segue agora para o Senado.


IDEC: Fim da rotulagem dos alimentos transgênicos: diga não! (com petição online, não deixe de assinar)
O direito à informação dos consumidores e consumidoras continua ameaçado.
O PL Heinze, que prevê a necessidade de rotulagem dos alimentos que contenham ou sejam produzidos com mais de 1% de ingredientes transgênicos mediante ANÁLISE ESPECÍFICA, entrou na pauta da Câmara do Deputados no dia 28 de abril e foi APROVADO, sendo encaminhado agora ao Senado. 
Por isso, mudamos o foco da Campanha e precisamos que todos enviem o maior número de mensagens possível aos senadores utilizando a ferramenta ao lado para tentarmos barrar essa aprovação. Mesmo quem já enviou pode mandar novamente, quantas vezes quiser!

Caso o projeto de lei seja aprovado, corremos sério risco de saúde, pois compraremos alimentos como óleos, bolachas, margarinas, enlatados e papinhas de bebê sem saber se são seguros ou não. Atualmente, cerca de 92,4% da soja e 81,4% do milho do País são de origem transgênica. É essa produção crescente e acelerada que leva para a mesa do consumidor um alimento disfarçado ou camuflado que não informa sua real procedência. 

Nós, consumidores, temos o direito à informação (artigo 6º do CDC) sobre o que estamos adquirindo ao comprarmos e consumirmos um produto.

O que você pode fazer?
Além de enviar quantas mensagens quiser usando nossa ferramenta linkada, você pode:
Chamar seus amigos/as para participarem da campanha compartilhando essa informação no Facebook e/ou Twitter: Eu quero saber o que estou comprando! NÃO AO FIM  da rotulagem dos transgênicos  http://bit.ly/transgenicosnao

Entenda a campanha
No fim de 2013 o projeto de lei de autoria do deputado Luiz Carlos Heinze poderia ir à votação em caráter de urgência, a pedido do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE). A ameaça não se confirmou. 
Em agosto de 2012, o Tribunal Regional Federal da Primeira Região,acolhendo o pedido da Ação Civil Pública proposta pelo Idec e pelo MPF, tornou exigível a rotulagem dos transgênicos independentemente do percentual e de qualquer outra condicionante, garantindo o direito à informação e à livre escolha estabelecidos no Código de Defesa do Consumidor.

A ABIA - Associação Brasileira da Indústria de Alimentos e a União recorreram diretamente ao Supremo Tribunal Federal (Rcl 14.873 e Rcl 14.859) e conseguiram em uma medida liminar do Ministro Ricardo Lewandowski para suspender os efeitos da decisão do Tribunal Regional Federal até o julgamento final do recurso. Até hoje não houve decisão final do Min. Lewandowski, mesmo com o parecer da Procuradoria Geral da República pela improcedência dos recursos da ABIA e da União.

Em 28 de abril de 2015, o projeto de lei foi colocado em votação na Câmara dos Deputados e aprovado com 320 votos e 135 contra e agora segue para apreciação no Senado.
Enquanto isso, corremos o risco de estarmos consumindo alimentos transgênicos sem que a informação esteja clara no rótulo, além de não termos o direito à escolha de um alimento sem qualquer presença desses organismos.

A introdução de transgênicos na natureza expõe nossa biodiversidade a sérios riscos, como a perda ou alteração do patrimônio genético de nossas plantas e sementes e o aumento dramático no uso de agrotóxicos. Além disso, ela torna a agricultura e os agricultores reféns de poucas empresas que detêm a tecnologia e põe em risco a saúde de agricultores e consumidores.
Precisamos que o maior número possível de mensagens contra esse PL cheguem ao Senado. Eles precisam saber que nós não queremos ser enganados e iludidos. Os consumidores têm o poder de escolha e o direito à informação. 






Em nota divulgada nesta terça-feira, dia 28, a Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/RJ repudiou o Projeto de Lei 4.148/2008, do deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP/RS), que permite que alimentos contendo transgênicos não sejam identificados no rótulo. 

O PL foi votado também na terça-feira na Câmara dos Deputados. Na ocasião, o plenário aprovou, por 320 votos a 135, a subemenda substitutiva de autoria do deputado Valdir Colatto (PMDB/SC).

Na forma do §3º do art. 1º da subemenda, o tamanho do aviso sobre transgênicos pode ser de um milímetro, que é o tamanho mínimo estabelecido no Regulamento Técnico sobre Rotulagem de Alimentos Embalados, a Resolução 259/02 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“O resultado é que, infelizmente, permanece no texto aprovado o grave prejuízo aos cidadãos brasileiros, que terão cerceados os direitos à informação e à livre escolha. É um verdadeiro retrocesso, uma grande derrota sofrida pela população e proveniente daqueles que deveriam representar seus melhores interesses no Poder Legislativo”, declarou a vice-presidente da comissão da Seccional, Fernanda Bianco. 

Veja a íntegra da nota abaixo.
 


Nota da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/RJ sobre o Projeto de Lei 4.148/2008
(Rotulagem de produtos transgênicos)

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4.148/2008, que objetiva alterar o artigo 40 da Lei de Biossegurança (Lei Federal 11.105 de 24 de março de 2005), para restringir a rotulagem identificadora dos produtos que contêm ou foram elaborados a partir de transgênicos apenas àqueles  em que “análise específica” detectar a presença de organismos geneticamente modificados na composição final.

O PL prevê, ainda, sob alegadas motivações exclusivamente comerciais, a exclusão de rotulagem de alimentos destinados a animais, bem como de produtos, tais como carnes, ovos e laticínios provenientes de animais alimentados com soja, milho ou qualquer outro produto transgênico, mas que são destinados a consumo humano.

É preciso ter em mente que mais de 90% da soja e 80% do milho produzidos no Brasil são transgênicos. 

Boa parte dessa produção é destinada à elaboração de rações animais e de alimentos ultraprocessados (óleos, margarinas, biscoitos, etc.). Para estes últimos, o processamento industrial inviabiliza a detecção laboratorial da proteína transgênica no produto acabado.
Assim, na prática, o PL 4148/2008, de iniciativa do deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS), teria como consequência a comercialização indistinta da larga maioria dos produtos transgênicos e a consequente impossibilidade de livre escolha pelo consumidor.

Este aspecto não recebe a devida importância no texto do PL, que, apesar de até reconhecer a existência de direitos do consumidor, deixa transparecer em sua justificação a quais interesses se subjuga, chegando a admitir expressamente que... a fixação de quaisquer percentuais de presença passível de isentar a rotulagem não segue nenhum conteúdo científico, mas sim, em verdade, econômicos, ou seja, custos gerados na ‘segregação’ da matéria-prima convencional da transgênica, em toda a cadeia produtiva.”.

Ora, instituída pelo Decreto 4.680/2003, que regulamenta o direito à informação no caso de alimentos e ingredientes alimentares transgênicos, a rotulagem pode ser feita a partir da documentação fiscal que deve obrigatoriamente acompanhar o produto (seja ele transgênico ou não). Assim, não há que se falar em custos adicionais, nem mesmo na necessidade de testes laboratoriais.

Não menos importante, a totalidade da soja GM e boa parte do milho GM cultivados no Brasil são resistentes a aplicações de agrotóxico à base de glifosato, recentemente classificado entre prováveis carcinogênicos pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde. Produto químico este que responde por cerca de 40% de todo o volume de agrotóxicos usados anualmente no Brasil e se acumula mais nos grãos transgênicos.

Diante do acima exposto, a CBB-OAB/RJ entende que o projeto de lei em comento representa grave ofensa ao direito à informação e à livre escolha, consagrados pelo Código de Defesa do Consumidor, em cujo artigo 6º, inciso II, dispõe especificamente como direito básico do consumidora informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem”.

Não apenas isto, mas afronta normas internacionais específicas quanto aos transgênicos, como o Protocolo de Cartagena de Biossegurança da Convenção sobre Diversidade Biológica, ratificado pelo Brasil, que demanda, através de seu artigo 18. 2. a, que os países membros adotem medidas para assegurar a identificação de organismos vivos modificados nas importações/exportações, tanto os destinados à alimentação humana, quanto animal.

Como é sabido, o direito à informação é crucial à consecução dos direitos humanos fundamentais à saúde e ao meio ambiente equilibrado, por sua vez essencial à sadia qualidade de vida. Isto, pois a informação exerce papel basilar no poder de escolha dos cidadãos, sendo pré-requisito fundamental ao exercício efetivo da liberdade, inclusive no ato de consumo.

Além disto, a informação adequada possibilita que se tenha consciência das consequências das decisões. Neste caso, tanto das possíveis implicações à saúde humana, quanto das repercussões na preservação ambiental, posto que apenas um consumo consciente e sustentável é capaz de viabilizar a preservação dos recursos naturais às gerações presentes e futuras.

Portanto, a Comissão de Bioética e Biodireito da OAB/RJ manifesta-se contrária à aprovação do PL 4.148/2008 e favorável à plena rotulagem de produtos transgênicos.

 
Rio de Janeiro, 28 de abril de 2015.
Bernardo Brasil Campinho
Fernanda Bianco de Lucena Costa
Presidente
Vice-presidente
Gabriel Bianconi Fernandes
Integrante



Outras fontes:
Âmbito Jurídico: Produtos transgênicos: rotulagem e o direito à informacão do consumidor (um calhamaço em juridiquês com uma lista maior ainda de referências bibliográficas citando uma dúzia de juristas publicados)

Resumo: O estudo discorre de um viés analítico sobre a rotulagem dos produtos transgênicos e o direito de informação do consumidor, trazendo a lume as implicações no plano consumerista da saúde e da dignidade humana, do modo constitucional que se ver. O trabalho precário realizado pelas empresas responsáveis por produzir e disponibilizar produtos OGMs, quanto às suas deficiências, no que tange às informações nas embalagens e rótulos, até seu destino final, que é a venda. Baseando neste norte, o enfoque também usa a Lei de Biossegurança no Brasil que trata dos produtos produzidos a partir de organismos geneticamente modificados utilizando a saúde, a informação e a prevenção como soluções para os problemas que atingem os rótulos e embalagens dos produtos transgênicos.



Mais informação:
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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Quando a sustentabilidade me deixou na mão 03: composteira doméstica




Há alguns meses, li uma notícia acerca da distribuição gratuita em São Paulo de composteiras domésticas para reduzir o lixo orgânico em circulação:
Hypeness: composteiras gratuitas são a aposta de São Paulo para reduzir lixo orgânico em aterros sanitários.

Longe desse blog amador criticar uma iniciativa tão bem intencionada, mas eu tive uma composteira e não me atendeu. Vendi a mesma no Mercado Livre e com isso, amortizei meu prejuízo.

Vou descrever o que aconteceu na base do passo a passo e que cada um tire suas próprias conclusões:

Faz alguns anos e na época, havia um principal fornecedor, seu site era muito respeitado, com vídeos no Youtube e até um ciclista simpatizante com uma mini composteira na garupa de sua bicicleta, o que passava a impressão de que com as pedaladas, o processo se aceleraria, como uma ventoinha.
Assisti aos vídeos e vi universitários calmos e sorridentes misturando à terrinha tenra, folhas de alface, pedaços de tomate e folhinhas de agrião e rúcula.

Empolguei-me, encomendei uma (que não foi barata) e, por estar de viagem agendada ao Solo Sagrado de Guarapiranga, administrado pela Fundação Mokiti Okada, aproveitei ainda para trazer um acelerador de compostagem produzido pela Korin, que aceleraria a compostagem de toneladas em fazendas da própria Korin.

A composteira chegou em uma semana e com ela um manual explicando que nem todo o lixo orgânico produzido na casa poderia ser compostado, como carnes, ossos, frituras, lácteos, derivados de trigo como artigos de padaria, nozes, frutas cítricas e suas cascas, plantas doentes como aquele buquê que morreu, alho e cebola e comida industrializada por exemplo. Fezes de animais e o óleo residual da fritura nem pensar.
O que poderia ser colocado: talos e folhas de vegetais, serragem sem verniz, poda de grama e comida cozida desde que em pequena quantidade.
Enfim, as folhinhas de alface e rúcula dos vídeos promocionais, que eu já enterrava nos meus vasos normalmente, fosse o caso dos meus cães não estarem no clima.

Comecei a compostar ignorando algumas dessas exigências, como cascas de ovos, e nada acontecia, só as mesmas folhinhas e restos de arroz integral, feijão e tubérculos cozidos realmente compostavam e se biodegradavam. Observei que a biodegradação era ainda mais lenta do que seria num vaso simples da varanda, sem idas e vindas de minhocas e devidamente exposto ao ar livre.
Apelei ao acelerador de compostagem da Korin segundo a recomendação do fabricante, que exigia uma pré-fermentação com mascavo, e a mágica realmente aconteceu: no período de uma noite, o que era uma terra seca com meia dúzia de minhocas, virou um humus muito úmido de colocar qualquer esterco no chinelo.

E com esse humus hiper úmido, meus problemas começaram. A composteira, que era do tamanho maior, produz chorume e com ele, uma revoada de moscas foi atraída. Por ser grande e pesada, a mesma ficava apoiada no chão da minha então área de serviço. Dias depois, quando levantei a composteira para lavar a área, havia uma colônia de larvas que levei meses para me ver livre. As larvas inclusive vinham da primeira camada de terra, a que recebe os alimentos. Era possível ver as larvas escalando as paredes da composteira e empurrando a tampa para tentar sair. Enquanto a composteira esteve em minha casa, eu tive larvas prolíficas e dispostas e explorar o meio.

Pior, o lixo que eu produzia não era devidamente compostado em velocidade diretamente proporcional. Para fazer um simples bolo integral com meia dúzia de bananas, a composteira (que era do tamanho maior, sugerida para famílias de 4 a 6 pessoas), ficava entupida com as cascas e nada mais poderia ser adicionado por dias. E lembre que estamos falando apenas do lixo aprovado, fossem as fezes dos meus cães e o quadro seria um pesadelo.

Foi uma experiência que não deu certo em milhares de aspectos, mas principalmente porque eu nem teria como dar vazão à terra adubada em um apartamento de dois quartos, mesmo mantendo uma hortinha caseira em vasos na varanda.

Meses depois, conheci uma família de fazendeiras mulheres, muito animadas e fortes, entusiastas da compostagem. Fui conhecer a composteira delas e era o equivalente a uma piscina em meio a vasto matagal, bem atrás da horta. Detalhe importante: a terra era permanentemente exposta ao sol e à chuva. Uma vez por dia, um dos encarregados revirava aquela terra com o ancinho, cobria tudo com folhas secas e só. Não havia construção em alvenaria, manta de impermeabilização, escape com torneirinha para o chorume, etc. Não passava de um buraco no solo onde o bioextrato era processado naturalmente e os itens proibidos (fezes de animais, ossos, cascas de limão) faziam parte do processo normalmente, como papelão e até uns grampos metálicos. Aquela terra gerava o melhor adubo que já vi.
Explicaram-me que o sol era parte importante do processo, que acelerava tudo e eliminava os fungos e bactérias indesejáveis, porque terra sem sol e ar livre apodrece. Daí as moscas e larvas no meu apartamento.

Como eu tenho 3 cães, meu lixo orgânico doméstico é quase inexistente, quase todos os restos são comidos por elas como forma de complementar a alimentação, eu precisava da composteira justamente para o que ela não faz, dar um destino rápido às cascas de laranja, banana, demais itens complicados e, se possível, as fezes de animais, que entopem o vaso por serem mais secas.


Antes de começar essa postagem, voltei a pesquisar o assunto e encontrei muitos modelos de composteira na internet. Vou falar um pouco sobre cada um deles baseada estritamente na minha experiência pessoal.

As duas fotos abaixo deveriam ser proibidas pelo CONAR, associar a funcionalidade da composteira ao filtro de barro, assim como a de um triturador, não passa de propaganda enganosa.







A composteira padrão em foto retirada do site da Tramontina, foi acreditando nisso que comprei uma composteira de outro fabricante, a mágica automática que transforma lixo úmido em terra tratada num ambiente quase esterilizado.









O que eu vi realmente funcionar, além da composteira rústica rural: a composteira elétrica e a solar em larga escala:







Para brincar e estimular crianças sem acesso à áreas rurais, composteiras a partir de materiais reaproveitados, como galões de água, baldes plásticos de tinta-cola, pallets, etc. As versões em pallets são replicadas em hortas urbanas com muito sucesso em tamanhos ainda maiores, observe que no fundo essa versão em pallet não tem nada a ver com a composteira de 3 andares plásticas e sim com a composteira rural das minhas queridas fazendeiras: recipiente único, ventilado e parcialmente iluminado naturalmente.









O que pode ser o futuro da compostagem doméstica urbana, a composteira portátil elétrica substituindo os antigos incineradores, ideal para prédios com horta urbana em telhado verde:





Mais uma vez, nada contra a compostagem, uma técnica milenar e muito eficaz em áreas rurais. Mas, dentro de apartamento, a coisa não é tão simples e uma caixa plástica não vai simular um ecossistema inteiro.
Se você tem uma composteira portátil  na sua varanda e não quer outra vida, peço inclusive que deixe aqui seu comentário relatando a experiência.








Mais informação:
Como funciona um aterro sanitário
"Eu queria trabalhar com sustentabilidade"
Aterro sanitário para cogeração de energia limpa
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
O mito da embalagem sustentável: manual básico de reciclagem
Quando a sustentabilidade me deixou na mão 02: filtro de barro
33% do que você compra no mercado, vai para o aterro sanitário
Você compra demais ou "De onde vem o lixo produzido no mundo?"
Quando a sustentabilidade me deixou na mão 01: abiossorventes em alto mar e no meio do mato
Lâmpadas, termômetros e baterias: onde descartar itens com mercúrio e o que fazer em caso de intoxicação


sexta-feira, 24 de abril de 2015

"Verde", além de sexy, é country e impermeável








Há 6 anos quando comecei a escrever o blog, postei sobre minhas botas de couro vegetal em cano curto, para usar de calça, estão inteiras até hoje e suas fotos aparecem na postagem "Verde" é sexy. Três anos se passaram e eu encontrei as botas que queria em cano alto, para usar de saia e legging. Claro que estão novinhas e prontas para muitos anos de uso ainda, suas fotos aparecem na postagem de 2012, "Verde" é muito sexy.
Curiosamente mais 3 anos se passaram e cá estou eu de novo em 2015 com novas botas em material sintético, prontas para o tempo mais fresco que vem por aí. 
Dessa vez, as fotos não foram feitas na escadaria de meu apartamento antigo no Flamengo como nas duas postagens anteriores, mas na área comum do apartamento novo do Maracanã e as botas foram compradas pela internet, não precisei bater perna para encontrar.

Eu gosto muito de bota, uso direto porque acho prático e elegante. Quando comecei a trabalhar embarcada em plataformas, vestia o tradicional macacão laranja ao acordar, calçava aquelas botas pesadas com biqueira de aço embutida e devido registro no Ministério do Trabalho. Ficava desse jeito até a hora de jantar, quando tomava meu banho e podia então vestir um moleton. As outras mulheres à bordo, encontravam mil maneiras de driblar a situação, levando outras roupas, aproveitando horários de folga para se livrar do macacão, etc. Nunca me incomodou em nada, sempre achei muito prático e, quando parei de embarcar, senti muita falta de acordar e poder entrar num macacão e calçar umas botas sem ter que pensar no que vestir. Hoje, eu tenho vários macacões, como por sinal está na moda, e sempre que posso, calço botas. Meus macacões não são mais laranja e largos, é claro. E olhando umas fotos antigas de Lauren Hutton, que fez tantos safáris na África, que comprou os macacões dos guardas locais, vejo como a moda é mais influenciada pelos trabalhadores do que imaginamos




Galochas voltaram à moda há alguns anos totalmente repaginadas e caríssimas em versões assinadas por grandes estilistas. Como uma das minhas formações é justamente como Técnica em Segurança no Trabalho, todas as vezes em que procurava uma galocha para seu fim (proteger meus pés da chuva), ficava pensando em como um funcionário de açougue, plataforma, rede elétrica, construção civil e chão de fábrica estaria usando as suas. Via todas aquelas estampas comuns às galochas femininas dessa nova leva fashion, calçava e não ficava à vontade, sentia-me fantasiada. Então, quando encontrei as mais básicas possíveis, escolhi o fornecedor confiável mais barateiro e levei na mesma hora.

As galochas foram finalmente encontradas no Mercado Livre depois de muito procurar e as botas de vaqueiro na Dafiti, ambas sintéticas obviamente.
Outros sites muito bons e seguros para compras são a Passarela e Posthaus, mas não compre em hipótese alguma na Cosse Galochas - são uma fraude já denunciada e registrada na Polícia Federal. É incompreensível que ainda não tenham retirado o site do ar após tantas denúncias, leia melhor na página exclusiva do facebook, Cosse Galochas, a fraude!
A Melissa, que todas amamos, também fabrica lindas botas plásticas, cheguei a comprar um par há alguns anos mas tive que trocar, pois o modelo específico machucou meu tornozelo. Tomara que você não tenha o mesmo problema, tudo deles é lindo, com design moderno e animal friendly.
A Crocs também fabrica e vende galochas pela internet, mas parece que agora usam o site Netshoes como distribuidor e intermediário.

Eu gostei muito de comprar calçados em materiais sintéticos pela internet, é mais simples do que ficar perguntando para as vendedoras o que é ou não em couro animal. Eu sempre saía das lojas com a sensação de que poderia ter sido enganada quando não comprava das marcas que trabalham exclusivamente com sintético, como a Piccadilly e a Beira Rio, por exemplo. Pelos grandes sites, você pode escolher só o que for fabricado no seu material preferido e ir em frente sem medo.

Comprando qualquer coisa pela internet, pesquise antes as reclamações sobre a empresa no Google.

Dica para quem anda muito e não tem grandes mordomias: comprando botas, leve um número acima, principalmente se for de salto, bico fino ou galocha plástica, que não molda de acordo com o formato do seu pé e não vai amolecer nunca.



Sugestão aos fabricantes, à turma da Gooc por exemplo: Que tal fabricar galochas com e sem salto (anabela para não envergar com o peso) a partir da borracha de pneus reciclados?



Mais informação:
Lenços 
"Verde" é sexy

"Verde" é muito sexy
Jóias são insustentáveis
Animal Print em crochê e tricô
Artigos de couro vegetal em lojas convencionais
Bolsas, sandálias e cintos em pneus e cintos de segurança reciclados
Neurocientistas de todo mundo assinam manifesto reconhecendo consciência em animais

domingo, 19 de abril de 2015

Impactos ambientais do maior incêndio de SP, no terminal da Ultracargo no Porto de Santos, podem durar 5 anos



O incêndio, o rescaldo e os resíduos, artigo de Beatriz Carvalho Diniz para Portal Ecodebate

Durou 9 dias o incêndio na Ultracargo [na área industrial da Alemoa, em Santos]. Os impactos ambientais e sociais começaram a ser noticiados quando completou 1 semana. Peixes morrendo, combustível vazado, fumaça, fumaça, fumaça, chuva ácida se chover. A empresa foi multada em 22 milhões de reais e terá de cumprir 5 exigências, entre elas a revisão de seu Plano de Ação de Emergência e de seu Plano de Gerenciamento de Riscos. As dificuldades para apagar o fogaréu indicam como a empresa deveria lidar com riscos para evitar a ocorrência, para não alastrar, para conter e para se relacionar com moradores, órgãos e imprensa. E a conduta protagonista seria o adequado pela gravidade da situação e pela grandeza dos impactos negativos, com prejuízos econômicos, ambientais e sociais que, no final das contas, são compartilhados com a sociedade.

O Brasil tem uma bela e avançada legislação ambiental. Quando ouvimos ôtoridades ou empresários reclamando de licenciamento, estudos de impactos, planos de gestão de riscos e programas de ações preventivas, e vemos um desastre como o incêndio nos tanques de combustíveis da Ultracargo, fica fácil entender que estão errados. O plano para gerenciamento de riscos, com análises quantitativa e qualitativa, com classificação de riscos aceitáveis e não aceitáveis, e um programa de prevenção e controle de acidentes são instrumentos que dariam à empresa as condições de seus gestores terem conduta protagonista antes, durante e depois de um desastre ambiental.

Mas, não basta ter um instrumento de gestão ambiental robusto na teoria, tem que manter atualizado e tem que pôr para funcionar no cotidiano da empresa e na precisão. E estando atualizado e sendo executado, moradores do entorno sabem o que fazer em diferentes situações, pois são treinados previamente. Possíveis impactos são anunciados para a imprensa, junto com orientações básicas de segurança, com a transparência que, pela confiança, anula crises e dispersa alarmes falsos ou sensacionalismos.

Consultamos no site da Ultracargo a seção sobre seus programas, normas e certificações. Entre os programas está o EPA [Examine, Planeja e Aja], que “tem o objetivo de eliminar as situações de risco, estimulando o planejamento adequado à tarefa, garantindo que as atividades de rotina sejam efetuadas com fundamentos de segurança.”, e ponto final. Informações sobre ações executadas ou previstas no programa? Orientações? Tem não… Considerando a periculosidade do negócio, o site deveria ser um canal dinâmico de comunicação com stakeholders, porém, não é aproveitado pela empresa para gerar valor.

A comunicação reflete a gestão de uma empresa, e a gestão determina sua reputação. Apagado o incêndio, o rescaldo cabe aos moradores. É importante que conheçam o plano de gerenciamento de riscos, as ações dos programas, que peçam diálogos efetivos. E se a Ultracargo não apresentou ainda, então, taí a oportunidade. Aliás, essa recomendação serve para qualquer pessoa que more perto de uma indústria, de um complexo industrial, e as associações de moradores e os vereadores podem, e devem, ajudar para que a sociedade tenha acesso e compreensão sobre riscos, responsabilidades e a importância de dialogar.

E é bom ficar de olho no que restou. Outra exigência, importantíssima, é relativa aos de resíduos gerados no incêndio, a empresa vai ter que apresentar um plano específico antes da remoção deles. O local de disposição tem que ser aprovado. Essa operação requer um Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental. Sabe por que? Para evitar mais problemas, para proteger o ambiente em que vivemos e do qual tiramos tudo que precisamos, ou seja, para o seu bem estar.

Segue o link para você conferir os motivos da multa e as ações que a Ultracargo deve cumprir, anunciados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) na quarta 15/04 [matéria do G1 – Cetesb multa Ultracargo em R$ 22,5 milhões após incêndio em Santos]:

Cetesb multa Ultracargo em R$ 22,5 milhões após incêndio em Santos

A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) anunciou no começo da tarde desta quarta-feira (15) que a Ultracargo será multada em R$ 22,5 milhões pelo incêndio que atingiu o Terminal da Alemoa, em Santos, no litoral de São Paulo, entre os dias 2 e 9 de abril. A empresa confirma que recebeu a autuação e vai analisar o documento.

De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a multa foi dada pois a empresa provocou danos ambientais e colocou a população em risco com o incêndio na zona industrial de Santos. A penalidade se baseou nos artigos 61 e 62 do decreto federal 6514/08, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98).

Em nota, a Cetesb diz que a Ultracargo foi multada por lançar efluentes líquidos no estuário de Santos, em manguezais e na lagoa ao lado do terminal, além de emitir efluentes gasosos na atmosfera, colocar em risco a segurança das comunidades próximas, dos funcionários e de outras instalações localizadas na mesma zona industrial. A Cetesb diz também que a Ultracargo ocasionou incômodos significativos no bem-estar da população e provocou a mortandade de milhares de peixes, de várias espécies, no estuário e no rio
Casqueiro, em Cubatão (SP), prejudicando a pesca na região.

Ainda segundo a Companhia, outros agravantes também foram levados em consideração, como a interrupção das atividades de outros terminais da região e do tráfego de caminhões no Porto de Santos, além dos transtornos causados ao tráfego urbano e operações portuárias.

Peixes apareceram mortos durante o incêndio que atingiu a Alemoa (Foto: Robynson Señoraes / G1)

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Estado, além da multa, a Ultracargo terá de cumprir cinco exigências, que são:

1. Condicionar qualquer remoção de resíduos ou de produtos gerados no incêndio à apresentação de plano específico para esse fim pela Cetesb, que também terá de aprovar o local de disposição desse material, ao emitir o Certificado de Movimentação de Resíduos de Interesse Ambiental.

2. Adotar medidas adequadas na operação de rescaldo do incêndio, para que não haja poluição atmosférica e emissão de substâncias odoríferas fora dos limites do terminal.

3. Realizar novo licenciamento ambiental, nos termos da legislação vigente, para a substituição, adequação ou reforma das instalações e equipamentos colapsados (tanques) ou não.

4. Revisar, no prazo de 30 dias, contados a partir de 14 de abril, o Plano de Ação de Emergência e o Plano de Gerenciamento de Riscos, apontando as falhas que resultaram no incêndio ocorrido no terminal, bem como as medidas preventivas a serem implementadas;

5. Efetuar, no prazo de 30 dias, o monitoramento das águas superficiais do estuário de Santos e lagoa contígua ao terminal, bem como da vegetação do entorno, inclusive de manguezais eventualmente impactados, adotando medidas necessárias para sua recuperação.

Além disso, a Ultracargo terá que contratar uma empresa especializada para fazer o resgate e atendimento emergencial da fauna silvestre aquática e terrestre, bem como o monitoramento de todos os grupos de fauna da área de interesse direto e indireto do local do incêndio, com apresentação de cronograma de atividades, projeto de translocação e eutanásia, e anuência do Departamento de Fauna da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais, órgão da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, e da Polícia Ambiental, para a translocação das espécies que ainda poderão sofrer impacto após o incêndio.

Resposta
Em nota, a Ultracargo confirma que recebeu a autuação da Cetesb referente ao incidente ocorrido em parte do terminal que opera em Santos. A empresa irá avaliar o documento, suas exigências e responderá à autoridade no prazo determinado. A Companhia segue prestando todos os esclarecimentos necessários e continuará em cooperação com as autoridades

Segundo a Companhia Ambiental do Estado, avaliação dos danos começa depois do rescaldo

Os impactos ambientais do incêndio que atingiu seis tanques de uma empresa de Santos, na semana passada, poderão durar pelo menos cinco anos, contaminando plantas e animais. Além disso, com a emissão de poluentes na atmosfera, existe a possibilidade de ocorrência de chuvas ácidas, o que comprometeria a vegetação da Serra do Mar. O alerta é do zoólogo Marcelo Pinheiro, do Campus Litoral Paulista da Unesp.

O incêndio no terminal da Ultracargo — o maior já registrado no Estado de São Paulo — só foi declarado extinto pelo Corpo de Bombeiros na sexta-feira (10), nove dias após ter começado.
Segundo a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado), até agora todos os esforços haviam sido concentrados no controle do incêndio e a avaliação dos danos ambientais terá início só após o rescaldo. 

Mas, segundo Pinheiro, é provável que a situação da área de estuário e dos manguezais, que já era crítica, fique ainda pior: bilhões de litros de água que foram usados no resfriamento dos tanques voltaram para o ecossistema aquático com resíduos do combustível e dos produtos químicos que compõem a espuma usada para debelar o fogo.
"Não podemos ainda prever com precisão quanto vai durar o impacto. Mas, dependendo da composição química da espuma e da quantidade utilizada, vai levar de cinco a dez anos para que a natureza se recupere e volte à situação original. Na água, esse produto poderá reagir com outros resíduos químicos, formando compostos mais tóxicos. A contaminação pode repercutir por toda a cadeia alimentar", disse Pinheiro.
— Além disso, os poluentes lançados na atmosfera podem formar a chuva ácida, que queima o tecido das folhas e impede a fotossíntese, matando a vegetação.

Segundo o gerente da Agência Ambiental de Santos na Cetesb, Carlos Eduardo Padovan Valente, ainda não foram detectadas alterações consideráveis na qualidade do ar. Mas a quantidade de oxigênio disponível na água foi reduzida dramaticamente e a temperatura subiu 7°C acima do tolerável para os peixes, o que causou a morte de oito toneladas deles.
— Desde domingo passado não temos mortes de peixes.

As consequências imediatas, porém, são visíveis na região do incêndio. Na Favela Chico de Paula, no mangue ao lado do Porto de Santos, o cheiro lembra o de posto de combustível. Nos carros, moradores apontam marcas de pingos pretos e a fuligem vinda do pátio da Ultracargo, a menos de 500 metros de palafitas e barracos, onde moram cerca de 30 mil pessoas.

A fumaça preta que cobriu a comunidade também agravou a situação de moradores que sofrem de doenças respiratórias. "Estou com uma dor de cabeça que não passa. Quando bate um vento e a fumaça vem com mais força, a gente tem até de fechar a janela", disse a dona de casa Ana Paula Palhas, de 38 anos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



As consequências imediatas são visíveis na região do incêndio

Pesquisador critica a maneira como as autoridades ambientais estão tratando o assunto

Mais de 8,5 toneladas de peixes morreram por contaminação, e chuva ácida também é esperada. Pesquisadores classificam impacto como “devastador”.

O Corpo de Bombeiros mantém o combate a pequenos focos de incêndio que persistem nas bacias de contenção, que ficam no entorno dos cilindros atingidos pelo incêndio no pátio da Ultracargo, no complexo industrial da Alemoa, em Santos. O incêndio atingiu cinco dos 175 tanques de combustíveis.
Os moradores do bairro Alemoa, o mais próximo da unidade santista da empresa, puderam permanecer em suas casas, mas estão com medo. Além da fumaça escura, eles relatam o aparecimento de peixes mortos no rio Casqueiro, que corta a Alemoa e deságua na baía na Santos.
“Estão recolhendo tudo, mas a cada dia aumenta o número de peixes mortos que aparecem boiando”, conta Maria Lúcia Cristina Jesus Silva, presidente da Associação de Moradores do Alemoa. “O cheiro de peixe podre é muito forte.”

Um laudo da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) confirma o impacto ambiental do incêndio. Análises feitas em vários pontos de saída de água para o combate ao fogo indicam que peixes morreram devido à baixa oxigenação e temperatura elevada.
“A esses dois fatores soma-se a presença de combustível, constituindo as causas mais prováveis da mortandade de peixes ocorrida no estuário”, comunicou em nota nesta quarta-feira (08/04) Cetesb. A companhia informou à DW Brasil que recolheu 8,5 toneladas de peixes mortos.

Segundo a Cetesb, a medição feita na terça-feira no bairro Bom Retiro, a 3 km do local do incêndio, registrou qualidade boa, “indicando que a fumaça não está afetando a comunidade no entorno”. Questionada pela reportagem, a companhia negou que a poluição causada pelo fogo nos tanques de combustíveis possa estar sendo carregada para outro lugar.
“Na atmosfera, os poluentes estão presentes, mas ficam restritos à área do evento. No entorno, ou seja, num raio acima de 3 km (onde existem residências), o monitoramento da qualidade do ar feito pela Cetesb não acusa concentrações acima dos padrões legais, ou seja, não oferece risco à população”, respondeu a companhia por e-mail.

Poluição e chuva ácida
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente, Baixada Santista, discordam. “A direção dessas partículas depende da dinâmica atmosférica, em alguns momentos elas seguem na direção do mar, pairam sobre a Serra do Mar, ou sobre a cidade, por exemplo”, analisa Davis Gruber Sansolo, coordenador do laboratório de planejamento ambiental e gerenciamento costeiro.

O pesquisador critica a maneira como as autoridades ambientais estão tratando o assunto. “É de uma irresponsabilidade absurda. Eles preferem ter uma postura política de diminuir o problema sem mesmo ter consciência da dimensão. Deviam ter um diálogo sincero com a população e deixar claro que a dimensão do problema ainda não é conhecida.”

Além da mortandade dos peixes, outro efeito de curto prazo esperado por pesquisadores é a chuva ácida. “Como há queima de hidrocarbonetos, a reação que dá com a água na atmosfera precipita chuva ácida. A gente não sabe exatamente qual é a intensidade do impacto que a precipitação desses poluentes pode causar tanto na saúde humana como nos CORPOS d´água”, analisa Sansolo.
Parte dessas partículas já pode ter atingido o solo durante uma chuva que caiu na região no último sábado. 

Caso essa chuva caia sobre a Serra do Mar, muito próxima ao local, haverá impacto sobre a floresta, preveem os pesquisadores. “Mas tudo terá que ser monitorado ao longo do tempo. Os efeitos na água, no ecossistema e na recomposição dele”, pondera o pesquisador. “Mas os efeitos são devastadores.”

Região estratégica
A Baixada Santista tem um histórico de problemas ambientais. As principais fontes de poluição são as indústrias, o despejo de esgoto sem tratamento e as atividades no porto. Ao mesmo tempo, é um ponto estratégico para o país: liga todas as regiões produtivas do planalto paulista ao mundo.
O estuário, local de transição entre rio e mar, é um ambiente de reprodução de espécies marinhas. Em Santos, várias se multiplicam, principalmente nas áreas de mangue, para depois habitar a área marinha. O local também é um receptor da poluição provocada pelo incêndio.
Especialistas ainda não conseguem dizer o que pode acontecer no ecossistema a longo prazo. Segundo o Núcleo de Estudos sobre Poluição e Ecotoxicologia da Unesp, a poluição já iniciou um processo de mortandade total sobre vários organismos no estuário.

Ainda não se sabe o que provocou o incêndio no terminal da Ultracargo. O Ministério Público Estadual instaurou inquérito para apurar as responsabilidades e investigar os impactos ambientais causados.
Para a promotoria, a culpa da empresa é clara, mesmo que o fogo não tenha sido intencional. Por meio de nota, a Ultracargo informou que “assim que as circunstâncias permitirem, a empresa avançará na investigação para apurar as causas do incêndio”.


Seis tanques de combustíveis foram atingidos pelas chamas e, nesta segunda-feira, bombeiros ainda tentavam combater o incêndio em dois delesFoto: Fernando Nascimento / Sigmapress / Estadão Conteúdo

A cortina de fumaça preta que cobre parte do céu de Santos (SP) deixa apreensivo quem a testemunha. Moradores de bairros vizinhos ao depósito da empresa Ultracargo, cujos tanques com 6 milhões de litros de combustíveis cada estão em chamas desde quinta-feira, temem os efeitos do incêndio na saúde e no meio ambiente. Enquanto isso, a fuligem mancha paredes, e a qualidade do ar se deteriora.

A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) classificou, nesta segunda-feira, a qualidade do ar na região do incêndio como N3-Ruim, em uma escala que vai de N1-Boa a N5-Péssima. A liberação de gases poluentes, resultado da queima de combustíveis como gasolina e etanol, pode causar efeitos imediatos no sistema respiratório. São substâncias que estão diariamente na atmosfera em função do próprio uso de veículos, por exemplo, mas que apresentam riscos maiores quando a exposição é em quantidades expressivas e por longos períodos.
— Um acidente deste tipo tem consequências imprevisíveis. Não sabemos, por exemplo, quanto tempo essa fumaça ficará no ar. Provavelmente, a longo prazo, haverá consequência principalmente para quem já tem alguma doença respiratória — aponta a diretora do Instituto de Toxicologia e Farmacologia da PUCRS, Maria Martha Campos.

O contato com o dióxido de enxofre — substância resultante da queima de gasolina — pode causar, de imediato, tosse seca, irritação e ardência nos olhos, nariz e boca em quem está mais próximo ao foco do incêndio. Conforme a pneumologista do Hospital de Clínicas Marli Maria Knorsd, o efeito seguinte seria a inflamação das vias aéreas e até mesmo falta de ar. Porém, ela alerta que as consequências dependem diretamente da intensidade da exposição aos gases poluentes. Marli diz, ainda, que estudos mostram o agravamento de problemas cardiovasculares em momentos de picos de poluição.
— Se a concentração (de gases poluentes, como dióxido de enxofre) é alta, pode tanto causar doenças em quem não tem, quanto novos sintomas em quem já sofre de alguma, como asma ou bronquite. Se a pessoa já tem uma doença respiratória ou cardíaca, ela faz parte de um grupo mais suscetível — diz Marli.
Em casos de alta exposição, a inalação dos poluentes pode evoluir para um edema pulmonar e, em quem sofre de doença cardiovascular, causar até um infarto.

Incêndio causa também danos ambientais
Conforme a Cetesb, as condições meteorológicas de Santos favorecem a dispersão de partículas — ou seja, as correntes também podem prejudicar o ar de localidades vizinhas. Especialistas alertam que, caso a qualidade piore, moradores mais próximos devem ser orientados a deixarem as suas casas.

Outro risco diz respeito ao dano ambiental. Um relatório preliminar da Ultracargo aponta que o incêndio provocou a contaminação da água do canal do estuário de Santos e pode ser a causa da morte de milhares peixes. "A água usada para conter as chamas foi despejada no estuário pelo sistema de escoamento da Ultracargo contaminada com combustível, provocando alteração da temperatura e saturação do oxigênio, provavelmente causando a morte dos peixes", divulgou a Cetesb. Para o coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Unisinos, Carlos Alberto Moraes, esse é o primeiro de uma série de possíveis efeitos decorrentes do acidente.
— O hidrocarboneto (combustível com base no petróleo) atinge a água, dificulta a luminosidade do céu e a transferência de oxigênio, o que leva rapidamente à mortandade de peixes por sufocamento e, também, por ficar com o óleo impregnado na pele — explica. — Já a questão da fuligem, que com o vento é disseminada, pode gerar um aceleramento de corrosão das espécies nativas, queima das folhas das árvores e a própria geração de chuva ácida decorrente do contato desses gases com a umidade.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) afirmou, por meio de nota, que analistas da equipe de emergências ambientais de São Paulo vêm acompanhando diariamente o acidente, mas que ainda é muito cedo para fazer qualquer avaliação sobre impactos ambientais.



Incêndio em tanques de combustível provocou enorme desastre ambiental na Serra do Mar e manguezais. 

Por que “Folha”, “Estado” e “Globo” continua a ocultá-lo?

O incêndio que eclodiu às 10 horas da manhã de quinta-feira (2/4), nos tanques da distribuidora Ultracargo, em Santos, pode resultar em grave desastre ambiental, mas pouca gente vai ficar sabendo sua real dimensão.
Três dias depois, os principais jornais do País pareciam não haver se dado conta da intensidade e das consequências do fogo que consumia milhões de litros de combustíveis na ilha da Alemoa.

Uma espécie de sonolência atingiu as redações, que em outras ocasiões investigaram e deram grande destaque a acidentes desse tipo.
A exceção tem nome: já no dia seguinte à primeira explosão, o Expresso Popular, que pertence ao grupo A Tribuna, de Santos, estampava na capa apenas dois títulos. Na manchete, sobre uma foto de página inteira, resumia a gravidade do incêndio: “Sem controle”.

No pé da página, informava: “Filho caçula do governador Alckmin morre em queda de helicóptero”.
Entre os aspectos mais importantes, destacavam-se em subtítulos dois fatos que os principais jornais do País deixaram de lado: “Combate ao fogo não tem dia nem hora para acabar”; e “Há risco de dano ambiental na Serra do Mar”.

Nesta segunda-feira (6/4), quatro dias depois que o jornal popular da Baixada Santista havia alertado para a grande dimensão do desastre, o Estado de S. Paulo admite, em nota de duas linhas na primeira página, que “Incêndio em Santos ameaça meio ambiente” e a Folha de S. Paulo posta uma foto com legenda informando que, 80 horas após a primeira explosão, observa-se a morte de peixes e moradores são obrigados a deixar suas casas.

Ou seja: os grandes jornais levaram três dias para admitir a gravidade da situação, detectada no primeiro momento pelo Expresso Popular.

Ainda no domingo, o site Globo.com informava, erradamente, que um laudo preliminar da Cetesb apontava a ocorrência de poluição grave na água da região; mais tarde, a informação foi corrigida: o laudo era da Ultracargo, não da Cetesb.

Dois dias antes, a empresa estatal de controle ambiental havia divulgado nota, sem contraponto dos jornais, afirmando que a fumaça que alcançava 50 metros de altura e espalhava cinzas e partículas incandescentes pela região, não representava perigo.
Movidos a press-release


Ainda no domingo, os dois principais jornais paulistas haviam noticiado que o governo do Estado decidira criar um gabinete de crise para acompanhar a situação.
A maior parte das iniciativas era tomada pela Prefeitura de Santos, que desde o primeiro momento havia mobilizado a Petrobras e órgãos federais.

O governo paulista parecia paralisado pela morte do piloto Thomaz Alckmin, filho do governador de São Paulo, ocorrida na tarde da mesma quinta-feira, em um acidente de helicóptero.
Compreende-se que o governador estivesse fora de combate, e a ninguém ocorreria ir perguntar a ele, em meio ao luto, o que estava sendo feito para controlar a situação na Baixada Santista e manter a população informada sobre o desenrolar do incêndio.
Mesmo porque, com o feriado da Páscoa, era previsto grande movimento de turistas em direção ao litoral. Mas o Estado tem um vice-governador, secretários, técnicos, e a empresa de controle ambiental.

Os jornais simplesmente compraram a primeira versão oficial, segundo a qual não era preciso tomar providências especiais nem nos bairros mais próximos ao terminal da Alemoa, e não estranharam o fato de que um gabinete de crise só foi montado no terceiro dia após a primeira explosão.
Ressalte-se que o grupo de acompanhamento não inclui um representante da Secretaria da Saúde, mas tem entre seus participantes o sub-secretário de Comunicação.

O perfil é muito parecido com o do gabinete de crise que foi instituído mais de um ano após o esgotamento das principais reservas de água na região metropolitana de São Paulo.
Em condições normais de bom jornalismo, não teria escapado às redações o fato de que, não apenas em São Paulo, mas na administração pública em geral, a gestão de crises quase sempre se limita ao potencial de estrago que as emergências podem provocar na imagem dos governantes.

No caso do incêndio em Santos, as informações mais importantes para que o cidadão tomasse suas precauções foram dadas no primeiro momento pelo Expresso Popular.
Os grandes jornais mandaram repórteres e fotógrafos para registrar o fogo espetacular, mas rechearam suas reportagens com os press-releases do governo.
Quase dá para ver as cinzas do bom jornalismo sob as chamas da Alemoa.


Na Folha: Sindicato indicou falhas na ultracargo 7 meses antes de incêndio



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